O jogo virou: pesquisas indicam que idosos passam mais tempo na internet que jovens

O jogo virou: pesquisas indicam que idosos passam mais tempo na internet que jovens

Redação Alô Alô Bahia

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Publicado em 23/03/2026 às 12:22 / Leia em 5 minutos

O uso intenso de celulares, frequentemente associado a jovens, tem avançado entre pessoas mais velhas e provocado preocupações dentro das famílias. Dados indicam que a presença de usuários com 65 anos ou mais nas redes sociais cresceu de 11% em 2010 para 45% em 2021, refletindo uma mudança no comportamento digital dessa faixa etária.

Relatos de filhos e netos apontam para um aumento significativo do tempo de tela após a aposentadoria. É o caso de James Sullivan, de 24 anos, que percebeu uma mudança no hábito dos pais depois que eles se mudaram para uma comunidade de moradia independente na Flórida. “Eu ia lá para jantar e eles estavam no celular, rolando o Facebook, vendo memes de IA ou algo assim”, disse em entrevista ao Washington Post. “Eu pensava: ‘Por que eu vim até aqui? Poderia ter feito isso online. Quero conversar com vocês pessoalmente.’”

Situação semelhante foi observada por Brendan Moriak, de 25 anos. Enquanto tentava reduzir o próprio uso de dispositivos, ele notou que o pai passava horas interagindo com ferramentas digitais. Segundo ele, os hábitos dos pais se intensificaram após a saída dos filhos de casa. “Gen X e boomers agora estão viciados em ChatGPT e em seus celulares”, afirmou. “Definitivamente houve uma inversão: meus pais usam mais o celular do que eu.”

Discussões em fóruns online reforçam essa percepção. Em uma publicação no Reddit, um usuário escreveu: “Meu pai está grudado no Twitter. Mal consigo fazer com que ele me responda quando digo algo.” Outro relatou: “Nossos pais ficam jogando no celular ou rolando o Facebook enquanto estão com a gente.” Há ainda quem descreva encontros familiares em que o tempo juntos é substituído por uso simultâneo de diferentes telas.

Pesquisas recentes corroboram esses relatos. Um levantamento feito pela Nielsen em outubro apontou que adultos com mais de 50 anos passam, em média, 22 horas semanais em dispositivos eletrônicos. Outro estudo, de 2025, indicou que pessoas com 65 anos ou mais quase dobraram o tempo gasto no YouTube em comparação com dois anos antes. Além disso, esse grupo apresenta alta taxa de posse de dispositivos como tablets, laptops e smart TVs.

Apesar do crescimento, os efeitos do uso prolongado de telas durante a aposentadoria ainda não são totalmente compreendidos. Especialistas destacam que esse período da vida coincide com mudanças cognitivas e sociais, o que pode influenciar a forma como a tecnologia impacta o bem-estar.

Uma moradora de Washington, que preferiu não se identificar, relatou que os sogros, durante visitas esporádicas, passam mais tempo no celular do que interagindo com os netos. “Se a avó não consegue ler um livro sem atender uma ligação, o que ela está dizendo para as crianças? Que o aparelho é mais importante?”, questionou.

Tudo começou na pandemia
O avanço do uso de tecnologia entre idosos tem relação com a pandemia de Covid-19. Em 2020, atividades como consultas médicas, encontros familiares e eventos sociais migraram para o ambiente virtual, levando muitos aposentados a se adaptarem a novas ferramentas digitais. Esse processo aumentou a familiaridade com dispositivos e aplicativos.

Além disso, diferentemente de gerações anteriores, muitos aposentados atuais tiveram contato com tecnologia ao longo da vida profissional. Teresa Searcy, de 74 anos, afirma que passa cerca de quatro horas por dia no celular. “Eu ainda trabalhava quando tudo começou a se tornar tecnológico”, disse. “Vi a transição das máquinas de escrever para os computadores.”

Em comunidades voltadas para pessoas acima de 55 anos, também há mudanças no perfil de uso. Dave Merritt, responsável por um comitê de tecnologia em Maryland, afirma que as dúvidas básicas diminuíram ao longo do tempo. “Antes, as perguntas eram sobre como usar um celular. Hoje, querem saber mais sobre inteligência artificial”, explicou.

O aumento do tempo livre após a aposentadoria também contribui para esse cenário. Segundo relatos, muitos idosos adotam atividades digitais como forma de entretenimento, especialmente diante de dificuldades para dormir. “Meus pais dormem cerca de quatro horas por noite. Esse tempo extra acaba sendo gasto no celular”, afirmou Sullivan.

Especialistas alertam que o uso excessivo pode indicar um problema quando substitui interações presenciais. Elizabeth Santos, presidente da Associação Americana de Psiquiatria Geriátrica, destaca que a tecnologia pode ser usada como forma de evitar o contato social. “Se você está escolhendo a tela em vez de estar com pessoas reais, isso é um problema”, afirmou.

Ela ressalta ainda que, ao contrário dos jovens, muitos idosos não receberam orientação sobre limites no uso de tecnologia. “É preciso estar atento ao impacto disso, especialmente quando começa a afetar o sono ou causar isolamento”, disse.

Por outro lado, pesquisadores apontam que o uso de dispositivos também pode trazer benefícios, especialmente no combate à solidão. Patrick Raue, da Universidade de Washington, afirma que a interação online pode ser significativa para idosos que têm poucas alternativas de contato social. “Sentir que há alguém presente, mesmo virtualmente, pode ser tão relevante quanto o contato presencial”, explicou.

Ainda assim, o equilíbrio entre o uso digital e a convivência direta permanece como um desafio. Para alguns familiares, a mudança de comportamento gera desconforto. “É assustador”, disse Sullivan. “Você passa a vida sendo cuidado pelos seus pais e, de repente, percebe que talvez precise começar a cuidar deles.”

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