A 10ª edição da FLIPELÔ, que acontece de 5 a 9 de agosto de 2026, no Pelourinho, terá como grande homenageada a poeta baiana Myriam Fraga, sua idealizadora. Ela esteve à frente da Fundação Casa de Jorge Amado por três décadas, entre 1986 e 2016, e foi peça fundamental para transformar o Centro Histórico de Salvador em palco de uma grande celebração literária.
Segundo Angela Fraga, presidente da Fundação Casa de Jorge Amado, a ideia da FLIPELÔ nasceu após Myriam participar da FLIP, em Paraty, em 2006, ano em que Jorge Amado foi o autor homenageado. “Ela voltou com uma ideia na cabeça, transformar o Pelourinho em palco de uma grande festa literária”, explica. A concretização veio anos depois. “Em 2017 conseguimos realizar a primeira edição da FLIPELÔ. Infelizmente, Myriam Fraga não conseguiu ver a concretização de sua ideia. Agora, na 10ª edição, achamos mais do que justo homenageá-la”, completa.
Reconhecida entre as principais escritoras e poetas brasileiras, Myriam Fraga publicou 25 livros, 13 de poesia, cinco de prosa e sete voltados ao público infantojuvenil, com obras traduzidas para o inglês, espanhol, francês e alemão. Sua produção dialoga com questões sociais do Nordeste, traz representações da Bahia e propõe uma construção do feminino, ressignificando figuras e temas da mitologia.
Eleita por unanimidade para a Academia de Letras da Bahia, tomou posse em 30 de julho de 1985, ocupando a cadeira nº 13, cujo patrono é o poeta Francisco Moniz Barreto. Em 2015, assumiu a vice-presidência da instituição. Também integrou a Associação Baiana de Imprensa e manteve colaboração ativa na imprensa, assinando por duas décadas a coluna “Linha D’água”, publicada aos domingos no jornal A Tarde, entre 1984 e 2004.
A homenagem em 2026 ganha contornos ainda mais simbólicos porque coincide com os 40 anos da Fundação Casa de Jorge Amado, instituição cuja criação contou com o empenho direto de Myriam. Foi por meio da coluna “Linha D’água” que ela defendeu a necessidade de uma entidade guardiã da obra do escritor baiano. O envolvimento foi tão decisivo que Jorge Amado e Zélia Gattai a convidaram para dirigir a Fundação, em 19 de junho de 1986, na Casa do Rio Vermelho.

Zelia Gattai, Jorge Amado e Myriam Fraga/Acervo
No livro “Casa de Palavras” (1997), ela relembra o momento do convite. “Confesso que nesse instante tive um breve momento de pânico. Trabalhara intensamente para que o projeto se tornasse realidade. Sinceramente esperava poder continuar de algum modo a trabalhar nele, mas de repente ser colocada na direção parecia-me uma tarefa para qual possivelmente não estava preparada”.
Para o diretor executivo da Fundação Casa de Jorge Amado, Ticiano Martins, a escolha se mostrou acertada. “Myriam Fraga conduziu com muita garra, dedicação e empenho a instituição, fazendo da Fundação Casa de Jorge Amado um dos equipamentos culturais mais importantes do país e de reconhecimento internacional. Um ponto de cultura que pulsa com toda força no coração do Centro Histórico de Salvador e que mantém vivo o legado de Jorge Amado e Zélia Gattai”.
A celebração se estende ainda ao artista plástico baiano Calasans Neto, amigo e parceiro criativo de Myriam. Pintor, gravador, ilustrador, desenhista, entalhador e cenógrafo, ele assinou as ilustrações de obras da poeta desde o primeiro livro, “Marinhas” (1964). A força dessa parceria foi registrada por Jorge Amado em “Navegação de Cabotagem” (1992): “A dupla é imbatível, Calá nasceu para ilustrar a poesia de Myriam, os poemas e as monotipias são da mesma matéria, visceral”.
É essa amizade e cumplicidade artística que a FLIPELÔ 2026 pretende celebrar. “Não temos dúvida que será uma homenagem linda, à altura de Myriam Fraga e Calasans Neto, combinando com os 40 anos da Fundação Casa de Jorge Amado. A 10ª edição da FLIPELÔ será especial. O sonho de Myriam Fraga se concretizou, o Pelourinho tornou-se um grande palco de uma festa literária. Nossa missão é seguir com esse sonho vivo. O povo baiano tem nos ajudado e junto com a Fundação Casa de Jorge Amado transformou a FLIPELÔ em uma das mais importantes festas literárias do Brasil”, finaliza Ticiano Martins.