A Igreja Nosso Senhor do Bonfim, erguida no alto da Colina do Bonfim, na Península de Itapagipe, é um dos símbolos mais reconhecidos da fé e da arquitetura baiana. Construída entre 1746 e 1772, a igreja combina influências do neoclássico e do rococó português e guarda séculos de memória, devoção e história do Brasil Colonial.
História e devoção
A construção está ligada à Irmandade do Senhor do Bonfim e à devoção trazida pelo navegador português Teodósio Rodrigues de Faria, que, ao sobreviver a uma tempestade, prometeu erigir réplicas da imagem do Senhor do Bonfim no Brasil. Inicialmente, as figuras foram instaladas na Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, na Península de Itapagipe, antes de serem transferidas para o local onde a igreja hoje se ergue.
Arquitetura e interiores
Inspirada em modelos portugueses, como a igreja de Setúbal, em Portugal, a igreja apresenta fachada rococó com torres simétricas e terminações bulbosas revestidas por azulejos amarelos. O interior, modificado ao longo dos séculos, mescla elementos barrocos tardios, pinturas e obras sacras, incluindo o painel do teto, que retrata marinheiros oferecendo ao Senhor do Bonfim um navio — símbolo da promessa de Teodósio.
O financiamento das obras ocorreu via doações de devotos locais, pescadores, negros livres e pequenos comerciantes, e não pela Coroa Portuguesa, como era comum à época. A administração da igreja, entretanto, ficou majoritariamente nas mãos da elite baiana.
Festividades e tradição cultural
Entre os eventos mais conhecidos estão a tradicional Lavagem do Bonfim, novenas, missas e procissões que atraem milhares de pessoas, mesclando tradições católicas e afro-brasileiras. A presença histórica das baianas e dos grupos ligados aos terreiros reforça o caráter híbrido da festa, que é tanto religioso quanto cultural.
Memória e revisitação histórica
Pesquisas recentes destacam a complexidade da figura de Teodósio Rodrigues de Faria, lembrado como navegador, mas também ligado ao tráfico de pessoas escravizadas. Reconhecer esses aspectos permite compreender melhor a história da igreja, sem apagar a devoção que ela mantém viva na cidade. Como apontam historiadores, entender a instituição e seus fundadores exige olhar crítico sobre a herança escravista na sociedade brasileira e sua ressignificação no presente.
A Igreja do Bonfim permanece, assim, como espaço de fé, arquitetura e memória, conectando passado e presente de Salvador e da Bahia.