Metade da obra de Gilberto Gil agora tem um novo sócio. Um dos compositores mais prolíficos da música brasileira, com mais de 800 canções distribuídas em cerca de 40 álbuns de estúdio, o artista baiano vendeu 50% do seu catálogo no início deste ano. A operação foi conduzida pelo Nas Nuvens Group, empresa brasileira liderada por Liminha, em parceria com a americana Primary Wave, especializada na aquisição e gestão de direitos autorais musicais.
A Primary Wave é a mesma companhia que, recentemente, comprou o catálogo de Britney Spears por cerca de US$ 200 milhões e que detém direitos de nomes como Bob Marley, Prince, James Brown, The Doors, Whitney Houston e Ray Charles. Segundo os envolvidos, trata-se de “uma das mais relevantes operações do mercado musical da América do Sul”, inserindo o Brasil em um movimento global de venda de catálogos por artistas consagrados.
O modelo adotado pelo Nas Nuvens é o de sociedade. “A gente gosta de comprar uma parte do catálogo e deixar a outra com o artista, porque aí a gente entra como sócio, parceiro do artista”, explica Jason Eliasen, COO e CFO do grupo, em entrevista ao jornal O Globo. Segundo ele, a empresa atua na organização, gestão e auditoria do repertório, enquanto a área artística desenvolve projetos para impulsionar as obras.
A negociação não teve valores divulgados, mas envolve um acervo estimado em cerca de 840 músicas que, considerando regravações, registros ao vivo e participações, ultrapassam dois mil fonogramas. Gil reúne mais de 3,3 milhões de ouvintes mensais no Spotify. “O Spotify paga no Brasil R$ 0,006, na média, por stream”, detalha Eliasen.

Liminha e Gil em 1984, na Jamaica | Foto: Reprodução/O Globo
A origem do Nas Nuvens remete a um endereço simbólico da música brasileira: o estúdio Nas Nuvens, no Jardim Botânico, no Rio, fundado por Liminha e Gil nos anos 1980. O espaço, que já foi sede do consulado da Holanda, tornou-se um dos mais emblemáticos do país. A relação entre os dois, no entanto, é bem anterior. Nos anos 1960, formaram a dupla Gil e Jiló e dividiram o palco no Festival da Record de 1968 com “Dois mil e um”, de Tom Zé e Rita Lee. Anos depois, Liminha produziria 14 discos de Gilberto Gil, incluindo “Luar” (1981), marcando uma parceria que atravessou décadas.
“Gil sempre me deu a maior força para experimentar coisas”, afirma o produtor, lembrando que o artista nunca se deixou limitar por críticas de puristas. “Aprendi muito de música com ele. Gil tem uma cultura musical enorme, conhece Luiz Gonzaga, bossa nova, João Gilberto, Jackson do Pandeiro, tudo, a música da Bahia. E, além disso, é uma pessoa maravilhosa”, diz ao repórter Ricardo Ferreira.
Foi sob a batuta de Liminha que nasceram clássicos como “Palco”, um dos maiores sucessos da fase disco de Gil. “Foi a primeira vez que a gente usou metrônomo numa gravação”, recorda o produtor. Os dois também compuseram “Vamos fugir”, marco da fase reggae do artista, e gravaram com o The Wailers, banda de Bob Marley, no estúdio Tuff Gong, na Jamaica.
Agora, a aposta é ampliar ainda mais o alcance internacional da obra. “Gil já tem um consumo internacional, mas a ideia é criar mais projetos internacionais. Por exemplo, a Primary Wave tem o catálogo do Bob Marley. Imagina fazer uma parceria entre Gil e os filhos do Bob Marley? A ideia aqui é muito mais sobre o legado, e o Gil tem um legado incrível”, conclui Eliasen.