A bióloga e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana Sampaio, foi a entrevistada desta segunda-feira (23) no “Roda Viva”, da TV Cultura.
O programa, que marcou a estreia do jornalista Ernesto Paglia na apresentação, focou nos avanços da pesquisa de três décadas da cientista com a polilaminina, uma versão sintética de uma proteína humana capaz de reconectar neurônios e reverter paralisias causadas por lesões na medula.
Durante a sabatina, a professora apresentou os números da fase de testes. Dos oito pacientes com lesão medular completa que participaram do estudo, 75% demonstraram algum grau de recuperação da função motora.
Ao ser questionada sobre a solidez da descoberta, ela foi categórica: “O resultado técnico não é passível de questionamento. Eu sei a literatura que estou me baseando. Eu não tenho dúvida de que nós fizemos uma avaliação correta que nós tivemos”.
O avanço médico colocou a cientista no centro do noticiário e da cultura pop nas últimas semanas, rendendo inclusive uma homenagem do cantor João Gomes. A notoriedade, no entanto, é um obstáculo para a rotina acadêmica da bióloga.
“Na pesquisa impacta muito, eu tenho dificuldades de estar no laboratório. Eu não tinha essa expectativa, em nenhum momento, de querer aparecer. O status de celebridade, que não tenho buscado, e nem com o qual eu me sinta confortável. É bom saber que está sendo admirada pelas pessoas, mas é desconfortável”, revelou Tatiana.
A pesquisadora aproveitou o espaço para esclarecer a controvérsia sobre a perda da patente internacional da polilaminina. Ela explicou que, em 2014, a UFRJ decidiu suspender o pagamento das taxas nos Estados Unidos e na Europa por avaliar tecnicamente que os registros não seriam aprovados.
Em 2016, a agência de inovação da universidade informou que também não havia verba para a anuidade brasileira. Para não perder o registro nacional, a própria Tatiana pagou um boleto de cerca de R$ 500.
A partir de 2018, o laboratório Cristália passou a investir no projeto e tentou reaver a proteção internacional por meio de advogados, mas o prazo legal já havia expirado.
Apesar do contratempo, a cientista avalia que o cenário atual garante a soberania nacional sobre o medicamento, impedindo que farmacêuticas estrangeiras ficassem com a maior parte dos lucros.
“O único efeito negativo foi que talvez tenha desacelerado o processo de pesquisa. Exceto por isso, eu diria que foi melhor assim, porque agora vai produzir [polilaminina] no Brasil e vai ser uma coisa brasileira”, afirmou a pesquisadora. “Além disso, a riqueza gerada por essa descoberta não reverteria para a UFRJ, nem para o Brasil”, concluiu.
Assista à entrevista completa: