O compositor e violonista baiano Cézar Mendes lança nesta sexta-feira (6) seu segundo álbum, “ITAPUANO”, que chega às plataformas digitais com 12 faixas e participações de alguns dos nomes mais importantes da música brasileira. O trabalho marca um momento especial em sua trajetória, já que pela primeira vez, ele assume o papel de intérprete de suas próprias composições, depois de décadas dedicadas à criação musical e a parcerias com grandes artistas.
O disco reúne encontros com Caetano Veloso, Chico Buarque, Marisa Monte, Adriana Calcanhotto, Monica Salmaso, Antonio Zambujo, Moreno Veloso, Tom Veloso e Sophie Charlotte, entre outros convidados. Mais do que uma reunião de participações especiais, o álbum apresenta canções que refletem diferentes momentos de sua caminhada e relações construídas ao longo dos anos.
Em conversa com o Alô Alô Bahia, Cézar disse que a decisão de também ocupar o lugar de cantor aconteceu de maneira espontânea. “Nunca tive muita pressa de ocupar esse lugar de cantor. Sempre gostei de compor, tocar violão e participar dos discos e dos universos de outros artistas. De certa maneira, sempre estive cantando também, mesmo quando a minha voz não era a voz principal”, conta.
Ele explica que a vontade de interpretar suas próprias músicas surgiu naturalmente, como um desejo pessoal e artístico. “Com o tempo, fui sentindo vontade de apresentar essas canções a partir da minha própria interpretação, com a minha voz, do meu jeito. Não foi uma decisão de carreira, mas uma necessidade musical e afetiva. Acho que ‘ITAPUANO’ reúne um pouco de tudo o que vivi e aprendi nesses anos”, afirma.
Os encontros com os convidados também são resultado de uma trajetória marcada por amizades e afinidades musicais. De acordo com o artista, algumas composições já pareciam destinadas a determinadas vozes, enquanto outras encontraram seus intérpretes durante o processo de produção. “Gosto muito dessa possibilidade de uma canção ganhar outra dimensão quando encontra um intérprete. O disco tem muito disso, de encontros verdadeiros. São pessoas que fazem parte da minha vida e da minha formação”, destaca.
Entre as relações que ganham espaço no álbum estão as parcerias com Caetano Veloso e Chico Buarque. Cézar ressalta que a presença dos dois representa a continuidade de vínculos construídos ao longo de muitos anos. “Ter Caetano e Chico nesse disco é uma alegria enorme, mas também é a continuidade de relações construídas ao longo de muitos anos. Existe uma generosidade muito grande nesses encontros. Quando um artista que você admira recebe uma música sua e aceita participar dela, acontece algo muito especial, a canção deixa de ser apenas sua e passa a ganhar outras possibilidades. É um presente que fica para sempre“, diz.

Caetano divide o microfone com Cézar em “João”, faixa que abre o EP | Foto: Bob Wolfenson
A identidade baiana também atravessa o projeto. Nascido em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, Cézar cresceu em um ambiente de forte tradição musical, característica que, segundo ele, permanece presente em sua maneira de criar e interpretar. “Santo Amaro está em mim de uma maneira muito profunda. É uma cidade de uma riqueza musical extraordinária, onde a música está na vida das pessoas, nas festas, nas ruas, nas relações. Cresci cercado por essa cultura e por essa maneira muito particular de viver e sentir a música”, afirma.
Para o compositor, a influência do território vai além das referências musicais e faz parte de sua própria identidade. “A origem acompanha a gente. Acho que ela aparece na minha maneira de tocar, de compor e até de ouvir. O Recôncavo é uma parte importante da minha identidade musical, e certamente está presente em ‘ITAPUANO'”.
O título do álbum, aliás, estabelece uma conexão direta com outra geografia afetiva do artista. Embora seja natural de Santo Amaro, Cézar mora em Itapuã, em Salvador, há cerca de 25 anos. A escolha do nome partiu de uma sugestão de Marisa Monte e traduz a relação que ele construiu com o bairro ao longo desse período. “Itapuã virou meu lugar, minha casa, meu cotidiano. O nome carrega essa relação com o território, com o tempo e com a vida que fui construindo aqui. Gosto também da sonoridade da palavra, da identidade que ela traz”, explica. “ITAPUANO é uma espécie de retrato afetivo, uma maneira de falar de pertencimento e de tudo aquilo que nos constitui”.
Com diferentes gerações e universos musicais reunidos, o álbum não nasceu de um conceito fechado. A unidade, conforme Cézar, está na relação pessoal que mantém com cada composição e com os artistas convidados. “São canções que foram nascendo em momentos diferentes, de encontros e parcerias, mas que têm uma ligação muito forte com a minha maneira de entender a música. Existe uma diversidade de gerações, linguagens e sensibilidades, e isso me interessa muito”, diz.
Assumir os vocais também trouxe uma nova percepção sobre suas próprias composições. Se, durante a criação, o olhar está voltado para aspectos como melodia, harmonia e letra, a interpretação exige uma entrega diferente. “Quando a gente compõe, muitas vezes está pensando na música, na melodia, na harmonia, na letra, em como ela pode ser interpretada. No momento de cantar, precisa se colocar dentro dela de outra maneira. A voz traz uma dimensão muito íntima”, observa.
A experiência, segundo ele, permitiu descobrir novas possibilidades de conexão com as canções. “Descobri que cantar minhas próprias músicas também é uma forma de me reconhecer nelas, de perceber coisas que talvez não estivessem tão claras no momento da composição”, conta.
Apesar de considerar “ITAPUANO” um momento especial, Cézar não enxerga o lançamento necessariamente como uma ruptura com o caminho percorrido até aqui. A composição, o violão e as parcerias continuam fazendo parte de sua identidade artística, mas a experiência como intérprete abre novas possibilidades. “Não sei se é exatamente o começo de uma nova fase, porque continuo sendo compositor, violonista e parceiro de outros artistas. Mas é, sem dúvida, um momento especial. Gostei de assumir esse lugar de intérprete e quero continuar descobrindo o que ele pode me oferecer. A música não precisa ter um caminho único“, conclui o artista, que dedica o trabalho a João Gilberto e Fernanda Montenegro, duas referências afetivas e artísticas.