A Secretaria do Patrimônio da União (SPU) identificou possíveis irregularidades no processo de transferência de uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. O imóvel é alvo de uma disputa entre o jogador Richarlison e o advogado Willer Tomaz, cuja empresa recebeu a propriedade em 2022. As informações foram publicadas pelo g1.
Um dos pontos que chamaram a atenção da secretaria foi a rapidez na emissão da Certidão de Autorização para Transferência (CAT). Documentos encaminhados à Polícia Federal mostram que a empresa responsável pela venda do imóvel à WT Administração, ligada a Tomaz, apresentou o pedido às 11h33 de 11 de julho de 2022. A autorização foi concedida pela SPU apenas uma hora e 40 minutos depois.
O órgão também identificou que a certidão foi produzida manualmente. No requerimento, a empresa justificou a solicitação alegando que havia uma falha no sistema. A secretaria questiona ainda os documentos utilizados para respaldar a autorização. Segundo a SPU, a emissão teve como fundamento uma decisão judicial relacionada a uma ação de reintegração de posse movida pela proprietária do imóvel contra a empresa ligada a Richarlison. Entretanto, os autos do processo judicial não foram anexados integralmente ao procedimento administrativo.
Diante dos questionamentos, a SPU encaminhou o material à Controladoria-Geral da União (CGU), para avaliação da regularidade e da integridade dos procedimentos, e à Polícia Federal. A secretaria também acionou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para apurar denúncias de possíveis crimes ambientais na ilha.
A mansão também está incluída entre os bens bloqueados por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em decisão de 23 de outubro, o magistrado determinou a indisponibilidade de R$ 6 bilhões em patrimônio de Willer Tomaz, incluindo imóveis, bens móveis, aviões e embarcações. A restrição já foi registrada na matrícula da propriedade em Angra, que não pode ser negociada até nova determinação judicial.
Tomaz é investigado pela Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro em negócios envolvendo empresas de apostas, conhecidas como bets. Procurado pela reportagem do RJ2, o advogado informou que não iria se manifestar.
Como começou a disputa
Richarlison afirma que comprou a mansão em 2020 por R$ 10 milhões, de antigos ocupantes que viviam na ilha havia décadas. Depois da negociação, o jogador procurou a SPU para regularizar a ocupação da propriedade. O pedido foi protocolado em 20 de setembro de 2021 pela Sport 70, empresa ligada ao atleta. De acordo com a atual gestão da secretaria, porém, o procedimento não chegou a ser concluído.
Willer Tomaz apresentou outra versão sobre a origem da propriedade. O advogado sustenta que os antigos moradores não eram os verdadeiros proprietários e afirma ter adquirido o imóvel de uma empresa que já possuía o registro da mansão. A transferência para a WT Administração recebeu autorização da SPU em julho de 2022.
O jogador acusa Tomaz e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de terem atuado para retirar seus direitos sobre a propriedade. Segundo Richarlison, a movimentação teria começado depois que ele recusou uma proposta de venda do imóvel ao parlamentar.
A disputa ganhou novos desdobramentos após uma reportagem do g1 apontar que Willer Tomaz possui outras cinco casas em ilhas de Angra dos Reis. Conforme o levantamento publicado pelo portal, a maioria dessas propriedades foi adquirida entre 2021 e 2022, período em que também ocorreu a negociação da mansão disputada com o jogador.