Casas mantidas pela Prefeitura de Salvador oferecem moradia gratuita a universitários quilombolas da Ilha de Maré

Casas mantidas pela Prefeitura de Salvador oferecem moradia gratuita a universitários quilombolas da Ilha de Maré

Redação Alô Alô Bahia

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Otávio Santos / Secom PMS

Publicado em 16/10/2026 às 11:58

Estudantes de comunidades quilombolas da Ilha de Maré, em Salvador, estão conseguindo dar continuidade à formação universitária graças a uma iniciativa que oferece moradia gratuita na capital baiana. Mantidas pela Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal da Reparação (Semur), as Casas dos Estudantes Quilombolas ajudam a reduzir os custos de deslocamento e permanência na universidade, beneficiando jovens que precisam deixar suas comunidades para estudar.

A iniciativa integra o Programa de Ações Afirmativas para a Comunidade Quilombola em Salvador. Atualmente, são duas residências, localizadas em Brotas e no Canela, com capacidade conjunta para acolher até 70 estudantes. Os espaços contam com quartos, cozinhas, salas de estudo e áreas de convivência.

Entre as beneficiadas está Geisiane Silva da Cruz, de 21 anos, moradora da comunidade de Bananeiras, na Ilha de Maré. Estudante do sexto semestre do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades da Universidade Federal da Bahia (Ufba), ela vive há três anos na residência e pretende seguir para o curso de Psicologia.

Apesar da saudade da família, que chega a passar quase um mês sem visitar, Geisiane destaca a economia proporcionada pela proximidade com a universidade.

Casas mantidas pela Prefeitura de Salvador oferecem moradia gratuita a universitários quilombolas da Ilha de Maré

“Eu me sinto privilegiada de certa forma, por ser perto da faculdade. Não precisa pagar ônibus; tem o Buzufba também, que dá acesso para Ondina, São Lázaro, os campi, enfim. É muito bom não precisar ter esses custos que a gente teria a mais por estar lá na ilha”, conta.

Também da comunidade de Bananeiras, Mirella Conceição da Silva, de 20 anos, cursa o sexto semestre de Letras na Ufba e mora na Casa Quilombola desde o início da graduação. Ela costuma retornar à Ilha de Maré nos finais de semana, enfrentando um trajeto que pode durar de três a quatro horas.

Casas mantidas pela Prefeitura de Salvador oferecem moradia gratuita a universitários quilombolas da Ilha de Maré

“Não é todo mundo que tem essa oportunidade. Se eu não tivesse a possibilidade de estar aqui na casa, provavelmente não estaria aqui, porque o custo é muito grande. Acho que não teria condições de ficar pagando passagem todos os dias para vir à faculdade”, relata.

Moradia ajuda estudantes a permanecer na universidade

Para Angélica dos Santos Simões, de 35 anos, a iniciativa também representa a possibilidade de concluir a graduação. Natural da comunidade de Maracanã, na Ilha de Maré, ela cursa o sétimo semestre de Letras, com licenciatura em Espanhol, e vive na residência desde a inauguração.

Angélica tem baixa visão e, antes de se mudar para a Casa Quilombola, morava de aluguel na região da Bonocô. O deslocamento até a universidade exigia viagens de metrô e ônibus, além da ajuda de colegas, dificuldades que a fizeram pensar em abandonar o curso.

“Realmente pensei muitas vezes em desistir por conta disso. Por não ter uma estrutura, alguém para auxiliar e morar tão distante. Agora que moro perto, creio que vou concluir o curso e vai dar tudo certo”, afirma.

Outro beneficiado é Juan Nascimento Pedro, de 27 anos, também da comunidade de Maracanã. Estudante do sétimo semestre de Ciências Contábeis, ele já morou de aluguel na Federação e passou por outra residência universitária antes de chegar à atual casa.

Como frequenta aulas à noite, Juan enfrentava dificuldades para retornar para casa após as atividades acadêmicas.

“Era bem difícil, porque eu estudava à noite. Era complicado, principalmente o retorno para casa, porque eu saía da Ufba às dez horas da noite”, recorda.

Iniciativa conta com duas unidades em Salvador

A primeira Casa dos Estudantes Quilombolas foi inaugurada em julho de 2018, no bairro de Brotas, com capacidade para receber até 30 universitários. A segunda unidade foi entregue em outubro de 2022, no Canela, com espaço para 40 moradores.

Segundo a secretária municipal da Reparação, Isaura Genoveva, a iniciativa busca garantir condições para que os estudantes possam se dedicar à formação acadêmica sem enfrentar diariamente as dificuldades de deslocamento entre a Ilha de Maré e o continente.

“Além de oferecerem moradia de qualidade, reduzem as distâncias e evitam que estudantes precisem se deslocar diariamente das ilhas para o continente. Garantem alimentação, infraestrutura e condições adequadas para que esses jovens possam se dedicar aos estudos, além de proporcionar tranquilidade às famílias, que sabem que seus filhos estão em um ambiente seguro e acolhedor”, afirma.

A subcoordenadora de Combate ao Racismo da Semur, Sandra Mota, ressalta que o programa também contribui para ampliar as oportunidades profissionais dos jovens quilombolas.

“É uma política pública de reparação muito importante, para esses jovens que têm o sonho de se formarem, de ter uma profissão. Alguns querem levar o que aprendem para a ilha, atuar em suas profissões lá, enquanto outros têm o sonho de trabalhar em outros lugares”, destaca.

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