A proibição das casas de apostas no Brasil abriu um rombo de R$ 55 milhões nas contas do Vitória até o fim de 2027 e pode obrigar o clube a vender jogadores, segundo o presidente Fábio Mota. O impacto vem da rescisão do contrato com a 7K, patrocinadora máster do Leão, que tinha vínculo até o fim do próximo ano. De acordo com o dirigente, o acordo era a base de todo o planejamento financeiro do clube, inclusive dos compromissos assumidos para reduzir as dívidas.
“Em cima desse contrato e do valor a receber, o Vitória fez seu planejamento financeiro. O Vitória foi à Justiça do Trabalho, fez o acordo global para pagar as parcelas por mês. O Vitória foi à CNRD, fez o acordo para pagar as prestações da CNRD. Foi ao Governo Federal, parcelou o imposto para pagar o Perse. Isso tudo calçado no contrato que ele tem com a bet, que ele recebe por mês para poder pagar”, explicou Fábio Mota, em entrevista à Rádio Baiana FM.
A conta, porém, não se limita ao patrocínio na camisa. Mota lembrou que as empresas responsáveis pelas placas de publicidade nos estádios também dependem fortemente do dinheiro das apostas e já avisaram que vão suspender os repasses.
“O rombo é muito maior do que o patrocínio da camisa. Os clubes brasileiros têm contratos de patrocínio das camisas e têm dinheiro das placas de estádio, aquelas placas que fazem as propagandas ao redor do jogo. As placas recebem 75% de dinheiro das bets. As placas também já notificaram os clubes dizendo que não vão nos pagar”, revelou.
Somando as duas fontes de receita, o Vitória deixará de receber cerca de R$ 2,5 milhões por mês. “Como não recebemos o mês passado, são R$ 10 milhões. E, no ano que vem, um rombo de R$ 45 milhões, quando nós já tínhamos um contrato e esse dinheiro já estava computado”, detalhou o dirigente.
Sem esse dinheiro, os acordos firmados pelo clube para equacionar as dívidas ficam ameaçados, e as consequências podem ser graves. “Você agora não tem dinheiro para pagar a CNRD, vai tomar transfer ban. Não tem dinheiro para pagar a Justiça do Trabalho, vai ter as contas bloqueadas. Não tem dinheiro para pagar o Perse, vai perder o Perse”, alertou Fábio Mota.
O maior temor envolve justamente o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), que permitiu ao Vitória renegociar tributos em condições vantajosas. “O Perse foi uma conquista que a gente conseguiu. A gente diminuiu pela metade a dívida do clube para conseguir fazer o Perse. Quando você deixa de pagar o Perse, a dívida do clube volta para o valor original e você perde”, explicou.
Na visão de Fábio Mota, o principal problema foi a forma como a medida provisória foi adotada. Segundo ele, o texto não permite que os clubes recebam multa rescisória das empresas, e o fim abrupto dos contratos pegou todos de surpresa.
“De uma hora para outra, você acorda no outro dia e esse contrato foi extinto. E, da forma que foi feito pelo Governo Federal, não permite que você receba nem a multa, nem a rescisão do contrato da bet. Então, eu acho que faltou uma transição. Isso foi feito na Premier League, eles deram um ano para adaptação. Não estou defendendo as bets, repito. Eu acho que a forma como foi feita foi equivocada e virou terra arrasada para os clubes brasileiros”, afirmou.
Para o dirigente, havia alternativas menos traumáticas. “Teria que se ter uma transição. Você dizer: ‘Tudo bem, o contrato acabou, certo? Vocês têm três meses para procurar novos patrocinadores’. Ou uma MP que dissesse: ‘O contrato acabou, mas as bets vão ser obrigadas, por tudo que já ganharam nesse país, a honrar pelo menos até o fim do ano com quem tem contrato’. Mas nada disso foi feito. Então, caiu e estourou para os clubes. E clube que tem dificuldade financeira, como o Vitória, pior ainda”, disse.
Diante do cenário, Mota não vê outro caminho senão negociar atletas. “Só resta para a gente agora vender ativo, vender jogador para tentar fechar o rombo e o buraco que ficou. Não tem outra alternativa. Vamos ter que vender atleta”, afirmou. Segundo ele, a rescisão já foi formalizada pela 7K, e o clube começou a semana sem contar com os valores do contrato.
O presidente garantiu que não faltará mercado. De acordo com ele, jogadores do elenco já receberam propostas que o clube nem aceitou discutir.
“Quando eu assumi o Vitória, o Vitória nem time tinha para botar em campo. Hoje o Vitória tem ativos importantes, tem jogadores que valem muito dinheiro. A gente não tem dificuldade de vender jogadores. Por exemplo, o Vitória não tem dificuldade de vender Renê. O Vitória não tem dificuldade de vender Lucas Arcanjo. O Vitória não tem dificuldade de vender Ramon. Todos esses jogadores já tiveram propostas e o Vitória se negou até a sentar para negociar”, disse.
Mota também comentou as conversas entre os clubes e o Governo Federal sobre a renegociação das dívidas do futebol, em que o maior peso vem dos impostos. Para ele, a carga tributária sobre os salários do setor é desproporcional.
“É um absurdo um jogador que ganha R$ 1 milhão por mês, você ter que pagar FGTS e INSS dele. FGTS e INSS ficaram para o cara que é assalariado, não para o cara que ganha R$ 1 milhão”, argumentou.
O dirigente disse que as negociações seguem em andamento, mas ressaltou que elas não resolvem o problema imediato. “Isso está caminhando. Vamos aguardar o desfecho disso aí para ver o que vai acontecer. Mas não vai resolver a questão emergencial que a gente tem hoje, que é a bomba que ficou no orçamento dos clubes”, concluiu.