Na Flipelô, Itamar Vieira Junior fala sobre novo livro ambientado em Salvador

Na Flipelô, Itamar Vieira Junior fala sobre novo livro ambientado em Salvador

Redação Alô Alô Bahia

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Rovena Rosa/Agência Brasil

Publicado em 08/08/2026 às 19:35

O escritor baiano Itamar Vieira Junior encerra sua “Trilogia da Terra”, iniciada com o fenômeno editorial Torto Arado e seguida por Salvar o Fogo, com o romance Coração sem Medo. A nova obra tem Salvador como cenário e acompanha a história de Rita Preta, uma operadora de caixa que inicia uma busca pelo filho após o seu desaparecimento.

Itamar falou sobre o livro durante participação na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador. Diante do público que lotou o Largo do Pelourinho, o escritor explicou como a nova obra transporta para o ambiente urbano temas que atravessam os outros dois títulos da trilogia.

“Em Torto Arado, a terra é território e pertencimento. Em Salvar o Fogo, ela se confronta com a violência, a fé e a disputa pelo sagrado. E em Coração sem Medo, essa história chega a uma Salvador urbana, atravessada pelo deslocamento e pela violência contemporânea”, afirmou.

Salvador como cenário

Em Coração sem Medo, Rita Preta deixa o campo para viver na capital baiana, em uma trajetória semelhante à de milhares de pessoas que migraram do interior da Bahia para Salvador ao longo do século XX.

Na cidade, a personagem trabalha como caixa de supermercado, cria três filhos e leva uma vida considerada feliz até que um deles desaparece após um desentendimento entre os dois. Com o passar dos dias, Rita percebe que o sumiço pode ter outras circunstâncias e inicia uma jornada em busca de respostas.

“A nossa cidade, Salvador, infelizmente está cheia dessas mulheres que precisam enfrentar essa história, essa dor”, afirmou Itamar em entrevista à Agência Brasil antes de sua participação na Flipelô.

Embora ficcional, o enredo dialoga com uma realidade brasileira. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), o país registrou 43.828 pessoas desaparecidas apenas no primeiro semestre deste ano, média de 242 casos por dia. Em 2025, foram 85.232 registros.

Para Itamar, embora os desaparecimentos atinjam diferentes grupos sociais, suas consequências recaem de maneira especialmente dura sobre populações que também enfrentam a ausência de políticas públicas.

“Esse é um tema que não envelhece e que ainda está à nossa volta”, destacou.

Literatura e ancestralidade

Ao procurar pelo filho, Rita também passa a perceber que sua história está relacionada a acontecimentos anteriores à própria trajetória. A busca leva a personagem a se reconectar com suas origens e antepassados, mantendo a ancestralidade como um dos elementos que unem os três romances.

Para Itamar, a terra que atravessa a trilogia não representa apenas um espaço físico, mas também território, memória e pertencimento. Em Coração sem Medo, essa ideia chega ao próprio corpo.

“Quando um personagem, que é o filho da Rita, desaparece nesse último romance, esse corpo, que é um território, não é muito diferente da terra que está em disputa em Torto Arado”, explicou.

O autor também defendeu o papel da literatura na abordagem de questões que muitas vezes chegam ao público apenas por meio de números e notícias.

“Tudo que a arte não faz é dar respostas. Eu acho que ela nos ajuda a refletir sobre o que está acontecendo. Ela nos incomoda, a arte tem essa capacidade de incomodar. E acho que é a partir do incômodo que as mudanças vêm”, afirmou.

Com Coração sem Medo, Itamar Vieira Junior conclui um ciclo literário iniciado com Torto Arado, no qual as disputas por território e pertencimento atravessam diferentes gerações e, agora, deixam o campo para chegar à Salvador contemporânea.

 

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