Descoberta de caverna na Bahia com milhares de morcegos pode impulsionar nova política de conservação

Descoberta de caverna na Bahia com milhares de morcegos pode impulsionar nova política de conservação

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Jennifer Barros

Publicado em 25/06/2026 às 09:04 / Leia em 4 minutos

A descoberta de uma caverna no sertão da Bahia que abriga uma grande colônia de morcegos está ampliando o conhecimento sobre a fauna subterrânea do Nordeste e pode influenciar futuras políticas de conservação ambiental. A cavidade, localizada em Paripiranga, foi identificada durante expedições do Plano de Ação Nacional (PAN) Cavernas do Brasil, coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (ICMBio/Cecav), em parceria com a Bat Conservation International, por meio do Programa Brasil.

A nova “bat cave”, como são conhecidas as cavernas que concentram grandes colônias de morcegos, foi encontrada com apoio do Grupo Mundo Subterrâneo de Espeleologia. Outra descoberta semelhante ocorreu em Belo Monte, no sertão de Alagoas. Juntas, elas ajudam a preencher uma lacuna no mapa de distribuição dos morcegos do gênero Pteronotus, conhecidos por formar colônias que podem reunir dezenas ou até centenas de milhares de indivíduos.

Segundo a bióloga e coordenadora do Programa Brasil da Bat Conservation International, Jennifer Barros, “o achado nessas cavernas é bastante relevante, pois já existiam registros de ‘bat caves’ nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Sergipe, e sabia-se que espécies de morcegos do gênero Pteronotus, que formam grandes colônias, utilizavam essas cavernas como uma rede de abrigos. Com os novos registros, foi possível preencher parte da lacuna na rota desses morcegos pelo Nordeste, ampliando essa distribuição para a Bahia e favorecendo a conexão entre Sergipe e Pernambuco, com a contribuição de Alagoas”.

Além da importância científica, a descoberta na Bahia ajudou a desfazer um antigo temor da população local. A crença de que os morcegos da região se alimentavam de sangue preocupava principalmente criadores de gado. Integrante do Grupo Mundo Subterrâneo de Espeleologia, Fernando Silva explica que “ao visitarmos locais de grande relevância, como a Caverna do Bom Pastor e a Toca dos Morcegos, conseguimos desmistificar antigos medos. Em especial, os estudos realizados na Toca dos Morcegos confirmaram a ausência de espécies hematófagas, trazendo alívio imediato para os criadores de gado da região. Conversamos com pecuaristas locais e, ao compreenderem a verdadeira natureza desses animais, passaram a sentir-se muito mais seguros. Quando a comunidade recebe conhecimento técnico, torna-se a principal guardiã do patrimônio natural“.

Para o professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e articulador do PAN Cavernas do Brasil, Enrico Bernard, a preservação desses abrigos beneficia tanto a biodiversidade quanto as populações humanas. “Descobrir populações tão grandes e significativas tem um alto valor conservacionista. Proteger estes abrigos e seus milhares de morcegos ajuda até a garantir qualidade de vida para as populações humanas que vivem perto destas cavernas. Como comem centenas de toneladas de insetos por ano, as populações destas cavernas ajudam até na redução do uso de defensivos agrícolas, gerando economia para produtores rurais”, afirmou.

Jennifer Barros destaca ainda que o conhecimento sobre essas cavernas poderá subsidiar políticas públicas ligadas ao licenciamento ambiental, à avaliação de espécies ameaçadas e à criação de novas unidades de conservação voltadas à proteção desses abrigos naturais.

A descoberta em Alagoas também chamou a atenção dos pesquisadores por uma característica ainda mais rara. A caverna de Belo Monte foi classificada como uma “hot cave”, tipo de cavidade com única entrada relativamente pequena, pouca circulação de ar, temperaturas constantes entre 28 °C e 40 °C, umidade superior a 90% e alta concentração de morcegos. Das mais de 30 mil cavernas registradas no Brasil, menos de 20 possuem essas características, tornando esse um dos ecossistemas mais raros e frágeis do país.

Segundo o presidente do Instituto SOS Caatinga, Marcos Antônio Araújo, trata-se da única caverna conhecida em Alagoas com esse potencial, abrigando mais de 21 mil morcegos insetívoros. “Poucas pessoas conhecem os benefícios que esses animais trazem para o ecossistema, e é fundamental levar informação qualificada sobre a real importância desses mamíferos para o equilíbrio ambiental”, ressaltou. Diante da relevância da área, pesquisadores já iniciaram conversas com a prefeitura de Belo Monte para viabilizar a criação da primeira unidade de conservação municipal de Alagoas voltada especificamente à proteção de morcegos.

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