Há um momento especialmente bonito em “Chopin: Uma Sonata em Paris” em que a câmera abandona a exuberância dos salões franceses para se aproximar do silêncio do compositor diante do piano. É ali que o diretor Michał Kwieciński parece encontrar o tom do filme. Ele está menos interessado em transformar Frédéric Chopin em uma estátua da música clássica e mais disposto a revelar um homem consumido pela arte, pela fragilidade física e pelas contradições emocionais.
A produção franco-polonesa, lançada originalmente como “Chopin, Chopin!”, estreia nesta quinta-feira (28) em Salvador, com exibição exclusiva no Cine Daten Paseo. O longa chega cercado de expectativa depois de abrir o Festival de Cinema Polonês de 2025 e acumular elogios técnicos na Europa, especialmente pela fotografia assinada por Michał Sobociński, vencedora do Bronze Frog no Camerimage, um dos mais prestigiados prêmios de cinematografia do mundo.

Foto: Jaroslaw Sosinski/Akson Studio
Em vez de apostar apenas na grandiosidade estética típica das cinebiografias de compositores clássicos, Kwieciński escolhe um caminho mais íntimo. O filme acompanha Chopin em Paris, em 1835, já idolatrado pela aristocracia europeia, mas enfrentando o avanço da doença que ameaça interromper sua carreira precocemente.
Eryk Kulm sustenta essa proposta com uma atuação contida e melancólica, distante da caricatura do “gênio atormentado”. Há delicadeza na maneira como o ator incorpora os gestos, os silêncios e até a exaustão física do compositor. A preparação intensa para o papel, que incluiu meses de estudo de piano, aparece na naturalidade das cenas musicais.

Foto: Jaroslaw Sosinski/Akson Studio
Visualmente, o longa impressiona. A fotografia transforma Paris em um espaço simultaneamente sofisticado e sufocante, enquanto os figurinos e a direção de arte ajudam a criar uma atmosfera elegante sem cair no excesso ornamental. Não por acaso, a produção também recebeu reconhecimento por categorias técnicas importantes no cinema polonês. Com orçamento estimado em 72 milhões de zlotys, cerca de R$ 99 milhões, o longa está entre as produções mais caras da história do cinema polonês.
Mas o maior acerto de “Chopin: Uma Sonata em Paris” talvez seja entender que a música funciona melhor quando não tenta explicar tudo. O filme permite que o espectador sinta o peso emocional das composições sem transformá-las em trilha ilustrativa. Quando o piano surge, ele não interrompe a narrativa, mas se incorpora a ela.
Há, claro, momentos em que o ritmo contemplativo pode afastar quem espera uma cinebiografia mais convencional. Ainda assim, o resultado encontra força justamente nessa recusa ao espetáculo fácil. Ao humanizar Chopin sem desmontar sua dimensão artística, o longa constrói um retrato elegante, sensível e melancólico de um homem que parecia viver no limite entre a genialidade e o desgaste.
Serviço:
Filme: Chopin, Uma Sonata em Paris
Estreia no Brasil: 28 de maio de 2026
Direção: Michal Kwiecinski
Elenco: Eryk Kulm, Joséphine de La Baume, Victor Meutelet, entre outros
Gênero: Biografia/Drama
Duração: 133 minutos
Distribuição: Synapse Distribution
⭐⭐⭐⭐