“A Revolução dos Bichos”, de Andy Serkis, chega aos cinemas atualizando Orwell e suavizando a fábula política

“A Revolução dos Bichos”, de Andy Serkis, chega aos cinemas atualizando Orwell e suavizando a fábula política

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Reprodução

Publicado em 27/05/2026 às 09:46 / Leia em 5 minutos

Poucas obras atravessaram tantas gerações com tamanha força simbólica quanto “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell. Publicado em 1945, o livro permanece como uma das sátiras políticas mais influentes da literatura moderna ao retratar, por meio de animais em uma fazenda, os mecanismos de corrupção do poder, manipulação ideológica e transformação de líderes revolucionários em novos opressores. Agora, 80 anos depois, a história retorna ao cinema em uma nova animação dirigida por Andy Serkis, que estreia nesta quinta-feira (28), cercada de expectativa e de controvérsias.

Diferentemente da clássica adaptação animada de 1954, conhecida pelo tom sombrio e pela forte carga política ligada ao contexto da Guerra Fria, a nova versão aposta em uma abordagem mais acessível ao público contemporâneo e familiar. O núcleo da história permanece quase intacto, com os animais se rebelando contra os humanos em busca de igualdade, apenas para ver a revolução ser gradualmente corrompida pelos próprios líderes.

O tratamento dado à narrativa mudou significativamente com os anos. Serkis, conhecido por trabalhos como “O Senhor dos Anéis”, “Planeta dos Macacos” e “Mogli”, declarou em entrevistas que buscou reinterpretar Orwell para uma geração acostumada a novas formas de autoritarismo e manipulação social. Assim, a adaptação desloca parte da alegoria originalmente associada ao stalinismo para temas mais atuais, como populismo, concentração de poder econômico, influência corporativa e manipulação midiática.

A principal novidade narrativa é a criação do personagem Lucky, um jovem leitão inexistente no livro original, pensado como ponto de identificação emocional para espectadores mais jovens. A escolha ajuda a explicar o tom mais leve adotado pela produção, que incorpora humor, aventura e momentos mais otimistas do que aqueles presentes tanto no romance quanto na versão de 1954.

A versão suavizada perde parte da contundência política de Orwell ao apostar em uma estética mais próxima das grandes animações familiares contemporâneas, com piadas infantis, ritmo mais acelerado e um tratamento menos cruel da degradação moral dos personagens.

A dureza da alegoria política é diluída, sim, com muitos críticos considerando que o filme transforma uma das mais importantes sátiras políticas do século XX em entretenimento genérico, mas é possível um outro olhar, que enxerga mérito na tentativa de atualizar a narrativa para um novo público. Mesmo menos agressiva, a animação ainda preserva discussões relevantes sobre propaganda, manipulação coletiva e desigualdade, temas que permanecem extremamente atuais em um cenário global marcado por polarização política e disputas narrativas nas redes sociais.

Visualmente, a produção é elogiável. A qualidade da animação também se arvora no elenco de vozes, que reúne nomes como Seth Rogen, Steve Buscemi, Woody Harrelson e Glenn Close. A direção de Serkis também é um dos diferenciais do projeto, especialmente na construção emocional dos personagens e na tentativa de equilibrar comentário político com entretenimento popular.

Inevitavelmente, a nova adaptação também reacende o interesse pela histórica versão de 1954, considerada um marco da animação adulta. Produzido por John Halas e Joy Batchelor, o longa britânico ganhou notoriedade décadas depois quando vieram à tona documentos revelando o financiamento secreto da CIA durante a Guerra Fria. A agência norte-americana interferiu diretamente no roteiro, alterando o desfecho criado por Orwell para reforçar uma mensagem antissoviética mais explícita. Ainda assim, o filme segue reconhecido como uma obra importante pela ousadia estética e pela contundência política.

Entre fidelidade absoluta e atualização contemporânea, a “Revolução do Bichos” de Andy Serkis parece caminhar justamente na linha mais delicada das adaptações literárias, tentando dialogar com novos públicos sem perder a essência da obra original. A recepção dividida indica que essa escolha dificilmente agradará a todos, mas também reforça algo que Orwell provavelmente aprovaria, que é a capacidade de sua fábula continuar provocando debates sobre poder, controle e liberdade, oito décadas após sua publicação.

Veja trailer da primeira versão animada, de 1954, pode ser assistido em inglês, no Plex. A nova versão já está com ingressos em pré-venda, inclusive em Salvador, Lauro de Freitas e Vitória da Conquista.

Serviço:
Filme: A Revolução dos Bichos
Estreia no Brasil: 28 de maio de 2026
Direção: Andy Serkis
Elenco: Seth Rogen, Steve Buscemi, Woody Harrelson e Glenn Close, entre outros
Gênero: Animação/Comédia/Drama
Duração: 95 minutos
Distribuição: Paris Filmes
⭐⭐⭐

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