O Governo da Bahia assumiu, nesta quinta-feira (30), a gestão de dois dos mais simbólicos patrimônios históricos do litoral baiano: o Forte São Marcelo, em Salvador, e a Fortaleza de Morro de São Paulo, no município de Cairu. A medida marca uma nova etapa na relação entre preservação e uso turístico desses espaços, que carregam séculos de história.
A transferência da administração, que será formalizada junto à Superintendência do Patrimônio da União, mantém os imóveis sob domínio federal, mas repassa ao Estado a responsabilidade pela conservação, manutenção e exploração turística. A cessão, gratuita e de longo prazo, abre caminho para obras de requalificação, ampliação da visitação pública e criação de novas experiências culturais nos dois equipamentos.

Forte São Marcelo: sentinela circular da Baía de Todos-os-Santos
Erguido em 1623, durante o governo de D. Diogo de Mendonça Furtado, o Forte São Marcelo nasceu com uma missão clara: proteger Salvador de invasões estrangeiras, especialmente no turbulento contexto das disputas coloniais. Construído sobre uma coroa de areia, em pleno mar da Baía de Todos-os-Santos, o forte se destaca até hoje por sua arquitetura singular — é o único exemplar circular de fortificação portuguesa no Brasil, o que o torna um ícone não apenas histórico, mas também arquitetônico.
Ao longo dos séculos, o forte atravessou episódios marcantes da história brasileira. Foi ocupado por tropas holandesas em 1624, participou da resistência na Guerra da Independência da Bahia e chegou a funcionar como prisão política por um longo período. Tombado como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde 1938, carrega em suas paredes marcas físicas e simbólicas dessas transformações, como o escudo imperial mutilado após a Proclamação da República.
Já no século XXI, o espaço ganhou nova vocação. Em 2006, foi transformado no Centro Cultural Forte de São Marcelo, abrigando exposições como “Memórias do Mar”, “Memórias da Cidade” e “Memórias do Forte”, além de restaurante e loja. O acesso era feito por barco, em um curto trajeto a partir do entorno do Mercado Modelo, e rapidamente o local se consolidou como ponto de visitação: cerca de 400 mil pessoas passaram por ali entre 2006 e 2011, um terço delas estudantes.

Esse ciclo, porém, foi interrompido em 2011, quando o contrato de gestão com a entidade responsável não foi renovado, em meio a divergências administrativas e à necessidade de novas intervenções estruturais. Desde então, o forte permanece fechado à visitação, visível apenas à distância como um símbolo silencioso no meio da baía. Mesmo após uma restauração realizada entre 2014 e 2016, com investimento de R$ 7,5 milhões, o espaço não voltou a funcionar regularmente.
Agora, com a nova gestão estadual, o Forte São Marcelo se prepara para um renascimento. Estão previstas obras de requalificação que incluem recuperação do atracadouro, modernização das instalações elétrica e hidráulica e intervenções na estrutura geral. A proposta vai além da simples reabertura: o governo planeja transformar o local em um polo cultural e turístico multifuncional, com eventos, atividades culturais e até serviços de gastronomia no interior do forte.
A expectativa é que, após o processo licitatório e a execução das obras — estimadas inicialmente em cerca de 120 dias —, o espaço volte a receber visitantes.
Fortaleza de Morro de São Paulo: muralha viva da história colonial
Se o Forte São Marcelo guarda a entrada da Baía de Todos-os-Santos, a Fortaleza de Morro de São Paulo, também conhecida como Fortaleza de Tapirandu, vigiava um ponto igualmente estratégico: o canal de Tinharé, por onde escoava a produção de regiões como Cairu e Boipeba. Com cerca de 650 metros de extensão, o complexo ocupa a extremidade norte da Ilha de Tinharé e representa um dos mais importantes sistemas defensivos do período colonial na Bahia.
Sua origem remonta ao início do século XVII, embora existam indícios de estruturas defensivas ainda anteriores à invasão holandesa de 1624. Naquele momento, os próprios holandeses reconheceram a importância estratégica do local, utilizando-o como ponto de apoio antes de atacar Salvador e chegando a reivindicar sua posse durante negociações de paz — tentativa prontamente recusada pelos portugueses.
A fortificação permanente começou a tomar forma entre 1628 e 1630, durante o governo-geral de Diogo Luiz de Oliveira. O primeiro núcleo foi o Forte São Paulo, seguido pela construção de uma extensa cortina de muralhas que conectava diferentes baterias defensivas ao longo da costa. O projeto, atribuído ao engenheiro Miguel Pereira da Costa, deu origem a um sistema complexo, composto por estruturas como a Bateria da Conceição (ou Forte Velho), o Portaló — entrada principal da vila —, além de paiol de pólvora, prisões, armazéns e outras instalações militares.
Mais do que um conjunto isolado, a fortaleza moldou o próprio desenvolvimento urbano de Morro de São Paulo. Como não havia aquartelamento interno, os soldados se instalavam ao longo da vila, contribuindo para a formação do traçado urbano que ainda hoje caracteriza a região.
Ao longo dos séculos, a fortaleza alternou períodos de intensa atividade militar com fases de abandono e degradação, especialmente após o fim dos conflitos que justificavam sua função defensiva. Algumas de suas estruturas originais desapareceram ou sobrevivem apenas como vestígios, como a Bateria São Luiz e partes de uma possível cidadela inacabada no alto do morro. Outras, como o Forte São Paulo, o Portaló e trechos das muralhas, foram restauradas e permanecem como testemunhos tangíveis da engenharia militar colonial.
Atualmente, o conjunto cumpre também uma função turística e paisagística. O acesso é gratuito, e a caminhada ao longo das muralhas se tornou uma das experiências mais procuradas por visitantes, especialmente no fim da tarde, quando o pôr do sol transforma o cenário em um espetáculo natural. Há ainda pequenos recantos, como prainhas discretas ao longo do percurso, que reforçam a integração entre patrimônio histórico e natureza.
Com a nova gestão do Governo da Bahia, a expectativa é consolidar esse potencial. As ações previstas incluem medidas de preservação das estruturas remanescentes, valorização histórica do complexo e fortalecimento do turismo cultural na região. Há também a perspectiva de transformar partes do conjunto em espaços museológicos.