Caros e gentis leitores, não é segredo que o Alô Alô Bahia possui informantes em todos os salões da alta sociedade. No entanto, os eventos do último fim de semana forçaram até mesmo este repórter a desviar os olhos de Mayfair e direcionar sua pena para as terras quentes da Bahia. Consta que as mais finas flores da sociedade soteropolitana abandonaram seus afazeres habituais para se aconchegarem em um pavilhão lotado, movido por uma única obsessão. Se a temporada literária de 2026 possui um diamante inquestionável, ele atende pelo nome de Julia Quinn.
A transição do sotaque britânico imaginário para a realidade do Centro de Convenções de Salvador exige algum fôlego. No sábado, 18 de abril, a Bienal do Livro Bahia provou que o fascínio pela aristocracia londrina do século 19 sobrevive ao calor tropical. A Arena Farol foi tomada por uma multidão que ocupava os pavilhões desde as primeiras horas da manhã. O objetivo era um só: garantir um lugar próximo à autora norte-americana que transformou os oito irmãos da família Bridgerton em um fenômeno global. Após a palestra, a cena se repetiu na sessão de autógrafos. Fãs se espremiam nas baias, munidas de calhamaços, aguardando pacientemente a assinatura de sua criadora.

Julia Quinn atendeu fãs durante a Bienal do Livro Bahia no último fim de semana, em Salvador — Foto: Reprodução/Instagram
Foi após esse furacão de leitores apaixonados e agendas cronometradas que a reportagem do Alô Alô Bahia conseguiu alguns minutos com a escritora. Quinn é rápida no raciocínio. A autora que atualizou o romance de época ao injetar humor aguçado e cenas de intimidade na medida exata para o leitor contemporâneo parece observar tudo ao seu redor com uma curiosidade quase investigativa.
As fotos que circularam em suas redes sociais mostravam uma turista atenta aos encantos da capital baiana. Ao ser questionada sobre suas impressões da cidade, ela foi direta, assumindo o desejo comum a qualquer visitante com o cronograma apertado. “Eu achei que foi muito divertido. Eu gostaria de aprender mais sobre a história da cidade”, confessou a escritora. “Parece que ela tem uma história muito diferente do que sabemos do Brasil. Então, eu gostaria de passar mais tempo e aprender mais. E, na verdade, eu queria mais tempo para ir à praia”, afirmou.
A menção à complexidade histórica de Salvador serviu de gancho para uma provocação inevitável. Lugares carregados de passado costumam ser pratos cheios para romancistas que vivem de desenhar cenários de época. Seria possível imaginar um romance nos moldes de Bridgerton ambientado nas ladeiras do Pelourinho? Quinn sorriu com a possibilidade, demonstrando o respeito de quem sabe o peso que o contexto exerce na ficção.
“Sim! Eu não sei o suficiente sobre a história, mas eu acho que eu poderia fazer isso do jeito certo. Eu poderia, facilmente, vir para Salvador e viver aqui por um mês e escrever. Parece um lugar ótimo para escrever”, pontuou ela.

Autora fez uma breve passagem pela capital baiana, mas aproveitou alguns pontos turísticos da cidade — Foto: Reprodução/Instagram
A construção de suas narrativas, marcadas por diálogos ágeis e situações cômicas que quebram a seriedade dos bailes arranjados, exige uma engenharia particular. A dificuldade do ofício de quem digita aquelas páginas reside em uma balança invisível: o que custa mais caro, arrancar uma risada ou uma lágrima da público?
A resposta da autora escancarou a mecânica por trás do sucesso. “As cenas emocionais são mais difíceis. Eu acho que as cenas engraçadas simplesmente surgem, e elas são muito divertidas de escrever”, explicou. “E as cenas emocionais tomam muito mais do que eu imagino. As palavras não vêm tão rápido com elas”, continuou.
As palavras podem não vir com tanta velocidade na hora do drama, mas quando chegam, causam mudanças significativas na vida dos personagens. O universo de “Bridgerton”, inclusive, está prestes a passar por uma de suas maiores transformações na adaptação da Netflix, e o assunto se tornou uma das principais pautas dos últimos tempos.
No sexto livro da série, a narrativa acompanha a filha número seis, Francesca Bridgerton. Após a morte repentina do marido, o conde John Stirling, ela encontra consolo e um amor carregado de culpa no primo do falecido, Michael Stirling. Na adaptação para a televisão, a plataforma de streaming já anunciou que o personagem Michael será Michaela. A mudança estabelece um casal queer no centro da principal franquia romântica da atualidade.

Michaela e Francesca protagonizarão romance na próxima temporada de “Bridgerton”, na Netflix — Foto: Divulgação/Netflix
A alteração causou intenso debate nas redes, mas para a mulher que inventou a história original, o formato do amor não é um problema. A resposta de Julia Quinn sobre a guinada na produção televisiva soou como uma justificativa exata do porquê o seu trabalho atrai tantas pessoas. “Eu acho maravilhoso. Eu acho que ‘Bridgerton’ tem sido realmente fundamental em se tornando muito mais inclusivo do que normalmente vemos nesse tipo de série”, cravou a autora, que finalizou dizendo: “E é tão importante uma série mostrar que tudo pode ser sobre alegria, felicidade e finais felizes para todo mundo. Todo mundo merece um final feliz”.