A desaceleração na demanda por chocolate já começa a impactar diretamente a indústria de cacau no Brasil, mesmo diante de uma maior oferta de amêndoas, cenário que tem na Bahia um de seus principais reflexos. Dados do primeiro trimestre de 2026 mostram que o volume processado pelas indústrias caiu levemente, enquanto o recebimento de matéria-prima cresceu de forma significativa.
Entre janeiro e março, a moagem de cacau somou 51.715 toneladas, uma queda de 0,8% em relação ao mesmo período de 2025, segundo levantamento do SindiDados – Campos Consultores divulgado pela Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC). Em contrapartida, o recebimento de amêndoas alcançou 28.605 toneladas, alta expressiva de 61,1% na comparação anual.
O descompasso, de acordo com a entidade, evidencia que o problema atual não está na oferta, mas no consumo. “A moagem praticamente não reage, mesmo com mais cacau disponível. Isso deixa claro que o gargalo não está na oferta, mas na demanda e na competitividade”, afirmou Anna Paula Losi, presidente-executiva da AIPC em entrevista ao Valor Econômico.
A retração no consumo é atribuída, em grande parte, ao efeito prolongado da disparada dos preços do cacau no mercado internacional no fim de 2024, quando a commodity atingiu níveis recordes na bolsa de Nova York. O impacto elevou o custo dos produtos finais e, segundo a associação, ainda repercute no comportamento do consumidor. “Em 2024 e 2025 demorou cair a demanda e o consumo. Agora, a recuperação também vai levar algum tempo”, disse.
Principal produtora do país, a Bahia manteve protagonismo no setor. O estado respondeu por 16.208 toneladas de cacau recebidas pelas indústrias no trimestre, o equivalente a 56,7% do total nacional, com crescimento de 38,9% em relação ao mesmo período do ano passado. O Pará aparece na sequência, com 11.388 toneladas (39,8%), registrando a maior alta proporcional: 169,7%.
Juntos, Bahia e Pará concentraram 96,5% do volume recebido no Brasil, reforçando a forte dependência regional da cadeia produtiva. Espírito Santo (809 toneladas) e Rondônia (177 toneladas) aparecem com participações bem menores.
Com maior disponibilidade interna, o país reduziu as importações de cacau. No trimestre, foram adquiridas 18.068 toneladas no exterior, queda de 37,5% na comparação anual. Segundo a AIPC, o recuo está ligado ao aumento da oferta nacional, e não a mudanças regulatórias, como a redução do prazo do regime de drawback, mecanismo que permite importar insumos sem tributos para produtos destinados à exportação.
No campo institucional, o setor acompanha o avanço do Projeto de Lei nº 1.769/2019, aprovado pelo Senado e agora encaminhado para sanção presidencial. A proposta estabelece percentuais mínimos de cacau em produtos como chocolate e cacau em pó, além de exigir a indicação clara dessas informações nos rótulos. Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a medida representa um passo importante para valorizar a produção nacional.