Trancoso 30 Anos: projeto busca conter especulação e preservar identidade do vilarejo

Trancoso 30 Anos: projeto busca conter especulação e preservar identidade do vilarejo

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Divulgação/OTT

Publicado em 19/03/2026 às 09:36 / Leia em 3 minutos

Um dos destinos mais desejados do litoral baiano, Trancoso tenta equilibrar crescimento turístico e preservação de identidade por meio do projeto Trancoso 30 Anos. A iniciativa, liderada pela Organização Turismo de Trancoso (OTT), aposta em planejamento de longo prazo para manter o estilo “rústico chique” que consagrou o vilarejo, especialmente no icônico Quadrado, diante do avanço da especulação imobiliária e do turismo de luxo.

A proposta central é evitar que o destino repita o ciclo de degradação visto em outros polos turísticos, onde o crescimento acelerado acaba diluindo características culturais e ambientais. Entre as primeiras frentes de atuação está a mobilidade urbana, com medidas para reduzir o fluxo de carros nas imediações do Quadrado e buscar alternativas de transporte público, ainda inexistente no distrito de Porto Seguro.

“É um trabalho desafiador. Costumo dizer que quem planta tâmaras não as colhe, e isso nos dá força para seguir adiante em objetivos de longo prazo”, explica Laura Ramalho, codiretora executiva da OTT, em entrevista ao jornal O Globo. “Também lidamos com muito trabalho informal, algo que é contraproducente para a comunidade”.

Outro eixo estratégico do projeto envolve a inclusão social e o acesso à moradia. Um dos fundadores da OTT, Bob Shevlin, sócio do premiado Uxua Casa Hotel & Spa, destaca que o sucesso turístico pressiona o custo de vida e exige políticas que beneficiem quem vive e trabalha na região. “Uma das principais questões em destinos turísticos é a moradia acessível. Quanto maior o sucesso do turismo, menos acessíveis ficam os terrenos para os moradores. É preciso desenvolver bairros com preços viáveis e infraestrutura básica, como saneamento, transporte, saúde e educação”, defende.

A qualificação da população local também é considerada essencial para garantir que os benefícios do turismo permaneçam na comunidade. Nesse contexto, a Associação Despertar atua na formação de jovens para diferentes áreas, do atendimento ao turista à agricultura familiar, que abastece hotéis e restaurantes. Segundo Kelly Paduin, responsável pela entidade, o cenário mudou nos últimos anos.

“Antes, parecia que a riqueza gerada aqui não era para eles. Mostramos que é possível alcançá-la, desde que haja investimento em educação. A comunidade local é que recebe o turista, e o turismo, para ser bom, precisa primeiro ser bom para o morador. Fortalecemos a população local e capacitamos para o mercado de trabalho, para que sejam protagonistas”, conta.

O projeto também incentiva práticas de turismo consciente e de base comunitária. Iniciativas como a Associação Cores da Mata promovem compensação ambiental e direcionam recursos para pequenos produtores e comunidades tradicionais. Entre os exemplos está o roteiro Porto do Boi, em aldeia indígena Pataxó, que valoriza a cultura local e amplia a experiência dos visitantes.

Além disso, a preservação ambiental é vista como ativo estratégico. O entorno abriga áreas de Mata Atlântica protegida, como o Parque Nacional do Pau-Brasil, reforçando a ideia de que conservar o patrimônio natural é mais sustentável e economicamente viável do que substituí-lo por empreendimentos predatórios.

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