Terça da Bênção: missa que une fé católica e cultura afro-brasileira no Pelourinho completa 43 anos

Terça da Bênção: missa que une fé católica e cultura afro-brasileira no Pelourinho completa 43 anos

Redação Alô Alô Bahia

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Kirk Moreno para o Alô Alô Bahia

@myphantomtoy

Publicado em 13/01/2026 às 20:05 / Leia em 4 minutos

Uma missa com música, atabaques e dança, misturando fé católica com elementos da cultura afro-brasileira. Essa é mais uma preciosidade que, como se diz por aí, só se vê na Bahia. A Terça da Bênção é uma tradicional celebração católica que, semana após semana, lota a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Largo do Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador, reunindo fiéis, moradores, turistas e curiosos em torno de um rito marcado pela inclusão, pela ancestralidade e pela partilha.

Embora a igreja tenha sido erguida entre 1704 e o século XVIII, construída pela população negra escravizada e liberta nos raros horários de descanso, a missa das terças-feiras, celebrada às 18h, completa 43 anos em 2026. A celebração surgiu durante um movimento de revitalização do Centro Histórico e, desde então, tornou-se um forte símbolo da religiosidade afro-católica da capital baiana.

Padre Lázaro

Segundo o padre Lázaro, pároco da igreja, a Terça da Bênção não nasceu como um projeto isolado, mas a partir de uma tradição já existente no território. “Tradicionalmente, a terça-feira é dedicada a Santo Antônio. Aqui no Rosário, a devoção se fortaleceu em torno de Santo Antônio de Categeró, um santo negro, profundamente ligado à história dessa igreja, que tem um culto muito especial aos santos negros e à valorização da negritude”, explica.

Um dos momentos mais simbólicos da celebração é o ofertório, quando membros da Irmandade e fiéis levam cestos com pães até o altar. O gesto representa a caridade, a partilha e o cuidado com o próximo. Ao final da missa, os pães são distribuídos, reforçando o caráter comunitário da celebração e a tradição franciscana de alimentar quem tem fome.

Altar da igreja do Rosário dos Pretos após o ofertório.

A musicalidade é outro elemento central da Terça da Bênção. Atabaques, agogôs, xequerês e outros instrumentos de percussão conduzem os cânticos e dão ritmo à liturgia. Para o padre Lázaro, essa presença não descaracteriza o rito católico, mas o enriquece. “A missa segue rigorosamente o rito da Igreja Católica Apostólica Romana. O que fazemos é incluir cantos, instrumentos e ritmos que expressam o modo negro, afro-brasileiro e afrodiaspórico de viver a fé. Para os povos africanos, fé e vida não se separam”, afirma.

Ao longo dos anos, a Terça da Bênção ganhou o significado de um grande encontro de culturas, de crenças, de histórias e de pessoas. “É fé, é festa, é dança, é alegria, é fraternidade. Tem gente que vem pagar promessa, tem quem se emocione ao trazer o pão, outros se encantam por poder dançar dentro de uma igreja. Há também quem tenha vivido a intolerância religiosa e encontre aqui um espaço de acolhimento e diálogo”, destaca o pároco.

Terça da Benção atrai pessoas de todo o mundo.

A celebração atrai não apenas a comunidade local, mas também visitantes de diversas partes do Brasil e do mundo. Muitos relatam experiências transformadoras e o desejo de ver esse modelo de celebração levado a outros países. “É uma experiência única. Muita gente volta à igreja depois de participar dessa missa”, conta Lázaro.

Aberta ao público, a missa pode ser acompanhada por todos. A nossa dica é chegar com antecedência para achar um lugar dentro da igreja.

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