A Britânia prepara uma nova fábrica de aproximadamente 110 mil metros quadrados em Joinville, Santa Catarina, com conclusão prevista para 2028. O projeto faz parte dos planos de expansão da fabricante brasileira de eletrodomésticos, que completa 70 anos em 2026 e pretende ampliar sua participação no segmento de linha branca. Em entrevista à Exame, a vice-presidente da companhia, Ana Luiza Buffara, afirmou que o empreendimento pode representar um dos maiores investimentos da história da empresa, embora o valor ainda não tenha sido divulgado. “É um investimento alto. Talvez um dos maiores da nossa história sendo feito agora na cidade de Joinville”, declarou.
A dimensão do projeto contrasta com o início da trajetória da companhia. Fundada em Curitiba, em 1956, a empresa surgiu como Metalúrgica Eletrodínamo, criada por Percy Eduardo Isaacson. Formado em odontologia, ele chegou a trabalhar como dentista, mas decidiu abandonar a profissão depois de perceber que não gostava da atividade. A partir daí, experimentou diferentes negócios, incluindo a fabricação de fogareiros e conjuntos de mesas e cadeiras. A mudança decisiva aconteceu no início dos anos 1960, quando a metalúrgica começou a produzir ventiladores de ferro com a marca Britânia. O nome ganhou força entre os consumidores e acabou substituindo a denominação original da fabricante.
Depois dos ventiladores, vieram liquidificadores, batedeiras, espremedores de frutas e secadores de cabelo. Em 2002, a empresa entrou no mercado de áudio e vídeo, com aparelhos de DVD que ofereciam karaokê e videogames integrados. Cinco anos depois, adquiriu o direito de utilizar a marca Philco no Brasil. Atualmente, o grupo reúne mais de 1.000 produtos, distribuídos entre eletrodomésticos, equipamentos de áudio, ventilação e aparelhos de cuidados pessoais. A estrutura ultrapassa 500 mil metros quadrados e envolve operações industriais, administrativas e logísticas. São 8.500 funcionários diretos, número que chega a aproximadamente 10 mil quando considerados os colaboradores indiretos.
A principal operação industrial está concentrada em Joinville, onde o complexo da empresa passou de 155 mil para mais de 360 mil metros quadrados ao longo dos anos, considerando fábricas, armazéns e estruturas logísticas. A companhia também mantém centros de distribuição em Joinville e Linhares, no Espírito Santo, cuja unidade ocupa 75 mil metros quadrados. Em Curitiba fica a sede administrativa, enquanto São Paulo abriga um escritório. Outra ampliação, de aproximadamente 20 mil metros quadrados, está em fase de conclusão no centro de distribuição de Joinville e deve começar a funcionar até o fim do mês. A rede comercial inclui grandes varejistas, supermercados, atacarejos, distribuidores regionais e plataformas digitais, como Mercado Livre e Amazon. A empresa também vende diretamente ao consumidor e atende outras companhias. Segundo Ana Luiza, a distribuição alcança até localidades de difícil acesso. “A gente tem vídeos do nosso produto chegando de canoa em vários lugares do Brasil”, contou. Apesar de realizar algumas exportações, o mercado brasileiro continua sendo o principal foco da fabricante.
A ampliação da estrutura acompanha mudanças no portfólio. Entre 2024 e junho de 2026, a quantidade de produtos oferecidos pela Britânia cresceu 5,6%. Na linha branca, que reúne eletrodomésticos de maior porte, a expansão chegou a 22,4%, enquanto a categoria de portáteis avançou 6,7%. Os números representam o aumento da oferta de modelos, não necessariamente das vendas. Entre as categorias que ajudaram a construir a trajetória da marca estão os ventiladores, as air fryers e as escovas secadoras. No mercado de fritadeiras elétricas, a empresa buscou ampliar o acesso aos produtos com preços mais baixos. Segundo a vice-presidente, quando os primeiros modelos chegaram ao Brasil, entre 2012 e 2014, alguns custavam de R$ 2 mil a R$ 3 mil. A estratégia da Britânia foi oferecer alternativas por valores próximos da metade desse patamar. Nas escovas secadoras, a companhia também atribui parte de sua atuação ao pioneirismo na popularização do produto no país.
Para desenvolver novos aparelhos, a fabricante mantém equipes de pesquisa, engenharia e desenvolvimento, que analisam dados de mercado, visitam lojas e participam de feiras internacionais. Funcionários viajam para países como China e Estados Unidos, além de mercados europeus e asiáticos, em busca de tecnologias que possam ser adaptadas ao consumidor brasileiro. O trabalho precisa considerar um público cada vez mais atento não apenas ao preço, mas também à durabilidade e à necessidade de assistência técnica. “Não é porque o cenário econômico tá cheio de incertezas que o consumidor vai deixar de querer ter bons produtos dentro de casa”, afirmou Ana Luiza. A executiva diz que o desafio está em oferecer qualidade e funcionalidades sem elevar os preços a níveis que afastem os compradores. A mesma lógica orienta a convivência entre Britânia e Philco. Embora as marcas atuem em algumas categorias semelhantes, possuem equipes e estratégias próprias. A Philco tem posicionamento mais associado à tecnologia, enquanto a Britânia concentra sua proposta em produtos para atividades cotidianas com preços acessíveis.
Parte dos ganhos operacionais também vem de sugestões dos próprios funcionários. Um exemplo citado pela vice-presidente envolve a substituição de um lápis dermatográfico branco, utilizado para fazer marcações na produção, por um giz de cera levado de casa por uma funcionária. Como cada lápis específico custava cerca de R$ 25, ela decidiu testar uma alternativa mais barata, que cumpriu a mesma função. A iniciativa recebeu reconhecimento da direção e passou a ser lembrada como exemplo do programa Melhora Bri, que reúne propostas dos colaboradores para reduzir despesas e aperfeiçoar processos. Em 2025, o programa recebeu mais de 2.500 sugestões, que, segundo a empresa, resultaram em mais de R$ 80 milhões em custos evitados e despesas reduzidas. Outra iniciativa, o Inova Bri, permite que funcionários apresentem ideias para novos produtos, campanhas e mudanças em diferentes áreas. As propostas passam por avaliação de viabilidade, com participação direta de Ana Luiza.
Com a nova fábrica prevista para 2028, a Britânia pretende ampliar sua capacidade industrial e avançar em categorias de maior porte. O empreendimento em Joinville integra uma estratégia que também envolve expansão logística, diversificação do catálogo e desenvolvimento de produtos para diferentes perfis de consumidores. A companhia, que começou fabricando ventiladores de ferro em Curitiba, chega aos 70 anos com mais de mil itens no portfólio e uma estrutura que ultrapassa meio milhão de metros quadrados.