Baleias-jubarte têm menos filhotes em Abrolhos, na Bahia, e pesquisadores investigam impacto climático

Baleias-jubarte têm menos filhotes em Abrolhos, na Bahia, e pesquisadores investigam impacto climático

Redação Alô Alô Bahia

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Tânia Rêgo/Agência Brasil

Publicado em 02/11/2026 às 09:23

A temporada de baleias-jubarte em Abrolhos, no sul da Bahia, terminou com um número de nascimentos bem abaixo da média histórica. Até setembro, apenas 3,35% das baleias avistadas eram filhotes, segundo dados do Instituto Baleia Jubarte. O índice está distante da média de 9,98% registrada desde 2014 e dos 10,7% contabilizados durante toda a temporada de 2025. O recorde foi alcançado em 2024, quando a taxa de natalidade chegou a 16,69%.

A principal hipótese dos pesquisadores para a redução é o impacto das mudanças climáticas na disponibilidade de krill na Antártida. Os pequenos crustáceos são o principal alimento das jubartes, que percorrem quase 4 mil quilômetros entre a região polar e o litoral brasileiro para acasalar e dar à luz. Segundo Milton Marcondes, diretor de pesquisas do Instituto Baleia Jubarte, a menor oferta de alimento pode comprometer a reprodução dos animais.

“Baleias que não se alimentam direito, quando vêm acasalar, não têm tanta fertilidade, ou a fêmea em gestação corre o risco de perder o filhote”, acrescenta Marcondes à Agência Brasil.

Como as jubartes praticamente não se alimentam durante a migração, precisam acumular reservas de gordura antes de deixar a Antártida. A necessidade é ainda maior para as fêmeas gestantes, que precisam ter energia suficiente para a gestação e a amamentação dos filhotes.

Os números foram obtidos a partir do monitoramento diário realizado por pesquisadores do instituto em uma barcaça que transporta celulose entre Belmonte, na Bahia, e Barra do Riacho, no Espírito Santo. O acompanhamento ocorre no mesmo período e trajeto todos os anos, o que permite comparações mais precisas. Em 11 cruzeiros científicos realizados ao arquipélago dos Abrolhos, foram contabilizados 431 indivíduos, dos quais 42 eram filhotes, uma proporção também inferior à esperada.

Outro levantamento, feito por sobrevoos entre o litoral de São Paulo e o Rio Grande do Norte, está em andamento para estimar a população de jubartes no país. Em 2022, o último censo desse tipo registrou um número recorde de 34,5 mil animais. A expectativa dos pesquisadores é de que a contagem atual aponte uma redução no total de indivíduos e de filhotes.

Segundo Marcondes, a queda na natalidade não foi observada apenas no Brasil. O fenômeno também foi identificado entre populações de jubartes que frequentam a costa do Equador e as regiões oeste e leste da Austrália.

A temporada deste ano também teve duração menor. Normalmente, as baleias começam a chegar ao Brasil em junho, atingem o pico de presença entre julho e outubro e deixam a costa até novembro. Com menos filhotes, porém, a permanência dos animais no litoral tende a ser mais curta, já que as mães precisam aguardar o desenvolvimento dos pequenos antes de iniciar a viagem de volta à Antártida.

“As baleias que vieram acasalar, acasalaram e foram embora. Quem segura a temporada até mais tarde são os filhotes, porque a mãe tem que esperar ele crescer, desenvolver a musculatura e uma camada de gordura que permita a ele fazer a migração até as áreas de alimentação e proteja do frio da água de lá [Antártida]. Com menos filhotes, a temporada é mais curta”, explica Milton Marcondes.

Os registros de encalhes também apresentam mudanças. Embora os filhotes sejam normalmente os mais vulneráveis, a redução de nascimentos fez com que os animais jovens ganhassem destaque entre as ocorrências. Menos experientes e com menor capacidade de armazenar gordura, eles enfrentam mais dificuldades para encontrar alimento em períodos de escassez.

Outro dado que chama a atenção dos pesquisadores é a distribuição dos encalhes. Neste ano, Santa Catarina e São Paulo lideram os registros, diferentemente do padrão habitual, que concentra mais ocorrências no Espírito Santo e na Bahia. A explicação é que as baleias juvenis, por ainda não estarem em idade reprodutiva, costumam interromper a migração nos estados mais ao sul.

Até o momento, foram registrados 59 encalhes na costa brasileira, contra 78 no mesmo período do ano passado. Apesar da redução, o instituto alerta para possíveis consequências nos próximos anos. Pesquisas anteriores já relacionaram períodos de baixa disponibilidade de krill na Antártida a picos de encalhes em 2010, 2017 e 2018. O maior número de mortes foi registrado em 2021, quando 230 baleias morreram no litoral brasileiro, em um ano que também apresentou poucos filhotes.

“Este ano, nós não tivemos pico de encalhe. Pelo contrário, os números são relativamente baixos. Mas nós estamos tendo mais casos envolvendo juvenis no Sul. Se continuar o problema com disponibilidade de krill, pode ser que no ano que vem a gente tenha uma mortalidade atípica, porque geralmente é cumulativo”, alerta Marcondes.

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