Natural de Aurelino Leal, no sul da Bahia, Jô Melo, de 67 anos, construiu uma trajetória de empreendedorismo que começou dentro de casa, com uma máquina de costura doméstica comprada a prestações por cerca de R$ 800. Dez anos depois, a iniciativa deu origem à Divina Agulha, empresa de brindes e produtos personalizados que atende grandes marcas e projeta faturar R$ 1,2 milhão em 2026.
Jô chegou a São Paulo aos 13 anos para trabalhar como empregada doméstica. Anos mais tarde, encontrou no artesanato e na confecção de panos de prato uma forma de complementar a renda. A mudança de perspectiva veio quando sua nora descobriu, nas redes sociais, o Costurando Futuro, projeto da Fundação Grupo Volkswagen em parceria com a Aliança Empreendedora, que oferecia capacitação técnica e orientações de gestão.
A participação na iniciativa permitiu que a baiana tivesse acesso a conhecimentos fundamentais para estruturar o negócio, além de insumos como tecidos automotivos e cintos de segurança descontinuados, que passaram a ser utilizados na produção.
Foi nesse período que nasceu oficialmente a Divina Agulha, e Jô se formalizou como microempreendedora individual. O aprendizado em gestão também contribuiu para a ampliação da equipe e para a consolidação da empresa. “Os cursos básicos que a gente teve sobre gestão nos fez ser uma empresa com mais funcionários. O que veio lá de 2016 reverbera ainda nas nossas vidas”, disse, em entrevista ao Pequenas Empresas, Grandes Negócios.

Jô e Jéssica com vice-presidente de RH da Volkswagen | Foto: Reprodução/Redes Sociais
A transição da produção artesanal para o mercado corporativo ganhou impulso com a participação em bazares e os primeiros trabalhos para empresas como a própria Volkswagen e a Unilever. Mas foi durante a pandemia de Covid-19 que o negócio passou por uma das principais fases de expansão. A empresa direcionou parte da produção para máscaras de proteção, incluindo modelos com visor transparente destinados a pessoas com deficiência auditiva, e recebeu grandes encomendas da montadora para suas fábricas.
A fase marcou ainda a entrada mais ativa de sua filha, Jéssica Melo, de 34 anos, na gestão. Ela assumiu a organização operacional e o relacionamento com a rede de costureiras, contribuindo para ampliar a capacidade de atendimento. Hoje, a Divina Agulha possui sede própria, 12 máquinas profissionais, seis funcionários registrados e dois vendedores. Além de Volkswagen, Audi, Unilever e Toyota, a carteira de clientes inclui marcas como Farm, BASF e Avon.
A operação está organizada em três frentes, de confecção própria de mochilas, nécessaires, ecobags e bolsas; passando pela comercialização de itens corporativos importados, como squeezes e cadernetas; chegando ao desenvolvimento de kits personalizados para empresas.
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A gestão é compartilhada entre os integrantes da família, com divisão de responsabilidades entre a produção e as áreas administrativa e comercial. O crescimento da empresa trouxe novos desafios, com o espaço atual não atendendo mais às necessidades da operação. Por isso, a família planeja mudar para uma sede maior, com o objetivo de ampliar a capacidade produtiva e oferecer melhores condições de trabalho à equipe.
Essa expansão também está ligada a um propósito que vai além dos resultados financeiros. Jô e Jéssica querem transformar a experiência acumulada em oportunidades para outras pessoas, especialmente mulheres de baixa renda e jovens com dificuldade de acesso ao mercado formal de trabalho. O projeto é criar uma grande oficina dedicada à capacitação profissional desse público. “A Divina Agulha existe porque alguém quis servir. A gente tem como compromisso nosso servir também a sociedade”, ressalta Jéssica.