De antiga casa de veraneio a residência oficial, o imóvel no Alto de Ondina abriga o chefe do Executivo baiano há quase seis décadas. Tem quartos, gabinete, jardim, segurança e muita história, mas quase nada da suntuosidade que o nome “Palácio” faz imaginar

Palácio de Ondina
Uma área verde de perder de vista, no alto de Ondina. A casa, de dois pavimentos, não é bem um palácio como o nome sugere, mas tem a carinha de uma casa de campo, daquelas que todo mundo quer para fugir do caos de Salvador. É uma sensação de paz em meio à correria de uma metrópole. Piscina, segurança 24 horas, quartos e gabinete, se quiser trabalhar em home office. Além de poder ouvir o barulhinho do mar, também dá para escutar sons de todos os bichos possíveis, como macacos, hipopótamos, aves de todo tipo e até felinos, como uma pantera negra e onças. Gostou? Nem adianta procurar esta casa no Airbnb para passar o Carnaval de 2027. Esta residência é privilégio para poucos. Na verdade, apenas para uma pessoa e seus agregados. Estamos falando do Palácio de Ondina, residência oficial do governador da Bahia. É o único lugar do Estado em que o morador é escolhido através do voto.
O endereço no Alto de Ondina é oficialmente destinado ao chefe do Executivo estadual desde 1967 e, ao longo de quase seis décadas, já recebeu diferentes governadores, presidentes, autoridades estrangeiras, políticos, religiosos e representantes de diversos setores da sociedade. Apesar do nome pelo qual ficou conhecido, porém, o imóvel está muito mais para uma casa grande cercada de verde do que para um palácio no sentido tradicional da palavra.
Mas é complicado cravar alguma coisa sobre ela. Lá, só entram a família do governador, sua família e quem ele permitir. Nada de errado aí. Apesar de ser um imóvel público, é o domicílio oficial do governador. A casa, ou melhor, suas especificações, é um mistério. É possível conferir ordens de serviço da casa no Portal da Transparência do Governo Estadual, mas encontrar detalhes sobre a casa é como achar uma agulha no palheiro. Só existe uma referência sobre ela na Constituição da Bahia, no artigo 20: “Somente o Governador do Estado terá residência oficial, custeada pelo Poder Público”.
O jeito é perguntar para quem já foi inquilino do lugar, pois quem viveu ali conhece bem seus detalhes. Ex-governador da Bahia, Paulo Souto passou pela residência durante seu mandato e guarda uma lembrança bastante distante da imagem de luxo que o nome “Palácio de Ondina” pode sugerir. Para ele, a construção tem características muito mais domésticas do que monumentais, algo que considera inclusive coerente com a finalidade do imóvel. “Não tem nada de palácio. Na verdade é uma casa para governadores. É uma casa de fazenda, na verdade, mas num estilo realmente de uma casa de fazenda ampla e tal. Não é que seja desconfortável, não. Mas não tem nada de suntuosidade, zero. Nem era para ter”, afirma.
A história ajuda a explicar essa aparência. Antes de se tornar residência oficial, a área estava ligada ao antigo Campo de Experiências Botânicas e a casa era utilizada como residência do administrador. Registros históricos também associam o imóvel ao uso como casa de veraneio do chefe do Executivo, numa época em que Ondina ainda tinha características muito diferentes das atuais e Salvador se expandia lentamente em direção à região. A cidade cresceu ao redor da propriedade, os antigos espaços verdes foram sendo ocupados e o que era uma área afastada passou a estar no coração de uma das regiões mais movimentadas da capital baiana.

Palácio de Ondina
A mudança de função ocorreu em 1967, quando o então governador Antônio Lomanto Júnior transferiu a residência oficial do Campo Grande para Ondina. Durante 55 anos, o Palácio da Aclamação havia servido como morada oficial dos governadores baianos, mas a transformação urbana de Salvador e a necessidade de um espaço mais reservado contribuíram para a mudança. A partir dali, a casa de Ondina passou a fazer parte oficialmente da estrutura do governo estadual e começou a receber os sucessivos ocupantes do Palácio de Ondina, expressão que acabou se consolidando no imaginário popular, ainda que a própria denominação oficial tenha variado ao longo dos anos.
Luiz Viana Filho foi o primeiro governador a ocupar a residência depois da transferência. Vieram depois nomes como Antônio Carlos Magalhães, Roberto Santos, João Durval Carneiro, Waldir Pires, Paulo Souto, César Borges, Jaques Wagner, Rui Costa e, atualmente, Jerônimo Rodrigues. Em quase 60 anos, a casa acompanhou diferentes períodos da política baiana e serviu tanto como endereço residencial quanto como extensão da atividade administrativa de alguns governadores. O imóvel, portanto, não é apenas o lugar onde o chefe do Executivo dorme. Dependendo de quem está no comando do Estado, pode também virar local de reuniões, despachos e articulações.
Souto foi um dos governadores que utilizou o espaço dessa maneira. A rotina, segundo ele, permitia começar o dia recebendo secretários e tomando decisões antes mesmo de seguir para o Centro Administrativo da Bahia. “Antônio Carlos, por exemplo, usava o gabinete para despachar de manhã, e eu também fazia isso. Despachava de manhã com os secretários. A vantagem de despachar de manhã com os secretários lá era que você ganhava tempo. Depois você ia para o Centro Administrativo”, conta. A casa acabava funcionando como uma espécie de primeira etapa do expediente, embora nem todos os governadores tenham adotado o mesmo hábito. O local de trabalho fica no térreo, enquanto os dormitórios estão no andar de cima.
A estrutura, entretanto, não havia sido concebida originalmente para funcionar como uma extensão completa de um gabinete de governo. Souto lembra que o andar superior era muito mais voltado para a parte residencial e tinha poucos espaços destinados à convivência ou ao trabalho. “Você subindo não tinha o que fazer. Era ir para o quarto, para dormir. Se a gente quisesse trabalhar, ficava no gabinete lá embaixo. Não tinha nenhum ambiente de você entrar e ir para os quartos. Não tinha assim uma sala onde você pudesse botar televisão ou qualquer coisa, acabava sendo um dormitório”, relata. Segundo ele, governadores que vieram depois fizeram adaptações para tornar a residência mais adequada à rotina familiar e aos períodos de permanência no imóvel.
A descrição de Souto também ajuda a dimensionar o caráter relativamente simples da casa. Segundo ele, são três quartos no andar superior e outros dois no térreo, utilizados para acomodar eventualmente visitantes. Não se trata, portanto, de uma residência concebida como um grande complexo de hospedagem ou de recepção. É uma casa ampla, com ambientes que foram sendo adaptados ao longo do tempo conforme as necessidades de cada governador e de sua família. “Acho que quem veio depois tratou de fazer uma reforma e fazer isso lá. O que eu acho que foi certo”, diz.
Se a casa não impressiona pela suntuosidade, existe uma característica que impressionou Souto de maneira bastante concreta: o calor. A localização próxima ao mar pode levar alguém a imaginar que a residência seria naturalmente ventilada e agradável, mas o ex-governador guarda uma impressão completamente diferente. Para ele, alguns ambientes eram particularmente quentes, a ponto de a instalação de ar-condicionado ter se tornado uma necessidade. “Uma das queixas que tinha na minha época, na antessala do gabinete lá embaixo, era um calor insuportável. Os visitantes tiveram uma grande pressão para botar ar-condicionado, que eu acabei fazendo, o que salvou o lugar”, lembra.
O problema não atingia apenas quem trabalhava na casa. Secretários e outros visitantes que aguardavam para conversar com o governador também enfrentavam as altas temperaturas enquanto esperavam na antessala. A situação acabou se tornando uma das lembranças mais curiosas de Souto sobre o imóvel, justamente porque contrasta com a ideia de conforto absoluto que normalmente se associa a uma residência oficial. A casa pode ter sido escolhida por sua localização, espaço e segurança, mas isso não significa que todos os ambientes oferecessem o conforto esperado de uma morada destinada ao chefe do Executivo. “A casa poderia ficar mais no alto [onde hoje ficam as bandeiras]. Lá venta”, conta.
A área verde, por outro lado, era vista por Souto como uma das principais qualidades do imóvel. Durante seu governo, ele conta que procurou preservar e valorizar a vegetação existente no terreno, investindo na manutenção de plantas e flores para tornar o ambiente mais agradável. “Eu particularmente me preocupei em tentar valorizar o máximo possível a área verde, cuidando um pouco dessas áreas verdes, de vegetação, de plantas, flores, etcétera, para dar um aspecto mais agradável”, afirma. A presença do verde também reforça a característica quase rural que o ex-governador associa à residência, apesar de ela estar cercada pela urbanização de Ondina.
O terreno relativamente grande tem ainda uma função que vai além da paisagem. Em um cargo cuja rotina envolve exposição pública permanente e uma preocupação constante com segurança, o isolamento da residência representa uma vantagem. O governador pode chegar e sair sem ficar diretamente exposto ao movimento da rua, enquanto o perímetro permite um controle maior sobre quem entra e quem sai. O menor movimento é percebido pela equipe de segurança. Ao fazermos fotografias do lugar, fomos abordados por uma guarnição da Polícia Militar, de forma bem respeitosa. Eles nos encaminharam para um responsável pela segurança, que foi bem solícito e liberou a execução das fotos, sem restrições.
Para Souto, essa característica é uma das razões pelas quais a residência oficial continua fazendo sentido. “É estratégico para a segurança, por exemplo, do governador. Como ele fica no lugar isolado lá, ele acaba sendo bom para isso. Para isolar. Como é um terreno relativamente grande, isso exige um pouco de segurança, mas acaba sendo uma coisa importante para a privacidade do Governador”, explica.
Há ainda uma questão prática. O governador poderia morar em seu próprio apartamento ou em uma casa particular, mas, segundo Souto, a rotina do cargo torna essa alternativa mais complicada. A presença constante de autoridades, servidores, seguranças, jornalistas, visitantes e pessoas que procuram o chefe do Executivo pode interferir na vida de qualquer vizinhança. “Você hoje, de qualquer sorte, existe um certo entorno. É muito difícil você, por exemplo, ir para um apartamento que seja próprio. Imagine o governador recebendo visitas em local residencial comum de outras pessoas. Eu acho que, no fim, é uma coisa necessária”, avalia. Para ele, a residência oficial cria uma separação conveniente entre a vida privada e as obrigações de quem ocupa o governo.
Essa separação nunca significou, entretanto, que a casa deixasse de ser um espaço de representação política. Ao longo das décadas, o imóvel recebeu autoridades nacionais e estrangeiras em compromissos oficiais. Em 1995, durante o próprio governo de Paulo Souto, o presidente da Itália, Oscar Luigi Scalfaro, foi recebido na residência oficial durante sua passagem pela Bahia. Em 1998, o então secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, também passou pelo endereço durante visita ao Estado. ACM também recebeu o representante cubano, Fidel Castro. Lá, comeram bobó de camarão no almoço. Em outras ocasiões, o imóvel serviu para reuniões políticas, recepções e encontros que fizeram parte da agenda oficial dos governadores.
A casa também guarda episódios importantes da história cultural e religiosa da Bahia. Em 1975, durante o governo de Antônio Carlos Magalhães, dezenas de mães e filhas de santo foram recebidas no Palácio de Ondina, em um episódio que posteriormente passou a ser analisado por pesquisadores interessados na relação entre o poder público e o candomblé. A residência, assim, acabou se tornando um cenário onde a vida institucional do Estado encontrou diferentes dimensões da sociedade baiana. O endereço que serve de moradia para o governador também já foi espaço de diálogo, celebração, articulação política e recepção de personalidades.
Por isso, Souto faz questão de separar o significado do imóvel da pompa que a palavra “palácio” pode carregar. A própria denominação oficial já passou por mudanças que refletem essa diferença. Souto lembra que, durante o governo Waldir Pires, os documentos oficiais deixaram de utilizar a expressão Palácio de Ondina e passaram a adotar Residência Oficial de Ondina. Para o ex-governador, a mudança fazia sentido justamente porque ajudava a retirar do imóvel uma pompa que, na prática, ele nunca teve.
“Até Waldir fez uma coisa certa. Nos documentos oficiais ele tirou o nome Palácio de Ondina, aquela coisa que já estava pouco consagrada, e botou Residência Oficial de Ondina. Até pelas características. Veio ao exterior e até sabia que aqui não tem nada de palácio. E botou o nome certo”, afirma.
Desde 1967, quem entra ali pela porta da frente como governador leva consigo uma parcela da história política da Bahia e deixa, ao sair, suas próprias marcas na trajetória do imóvel. No próximo domingo, os baianos irão às urnas para escolher quem comandará o Estado a partir de 2027. E, entre as muitas consequências desse voto, estará também a definição de quem terá direito a chamar de casa a residência oficial de Ondina pelos próximos quatro anos.