O suspense “O Homem Que Sussurra” (The Whisper Man), novo filme da Netflix estrelado por Robert De Niro, Adam Scott, Michelle Monaghan e Michael Keaton, reúne um elenco de peso em uma história que mistura investigação criminal, desaparecimentos e traumas familiares.
Baseado no livro homônimo de Alex North, o longa acompanha Tom Kennedy (Adam Scott), um escritor que se muda com o filho, Jake, para uma pequena cidade após a morte da esposa. Quando o menino é sequestrado, Tom precisa recorrer ao pai, Pete Willis (Robert De Niro), um ex-detetive que passou décadas marcado por um antigo caso envolvendo um serial killer conhecido como O Homem Que Sussurra.
A premissa é bastante eficiente para quem gosta de thrillers policiais tradicionais. Há crianças desaparecidas, um assassino cercado de mistérios, pistas aparentemente desconectadas e um criminoso já capturado que pode ajudar a solucionar um novo caso. A estrutura remete claramente aos suspenses psicológicos que dominaram o cinema nos anos 1990.
E é justamente aí que o filme encontra seu principal mérito e também sua maior limitação. “O Homem Que Sussurra” não esconde suas referências. A produção aposta em uma atmosfera sombria e em recursos clássicos do gênero, incluindo gravações deixadas pelo assassino, investigação policial, personagens traumatizados e um criminoso encarcerado que parece saber mais do que revela.

Michael Keaton é um dos grandes trunfos da produção | Foto: Reprodução/Netflix
O problema é que essa familiaridade nem sempre funciona como homenagem e, em alguns momentos, o roteiro parece simplesmente reproduzir fórmulas já bastante conhecidas. A história tem elementos capazes de provocar tensão, mas algumas soluções são previsíveis e determinadas coincidências importantes demais para a investigação acabam diminuindo a sensação de realismo.
Nesse cenário, Michael Keaton é um dos grandes trunfos da produção. Como Frank Carter, o ator interpreta um criminoso perturbador, inteligente e difícil de decifrar. Mesmo aparecendo menos do que Robert De Niro e Adam Scott, Keaton consegue transformar cada cena em que está presente em um dos momentos mais interessantes do filme.
Frank funciona especialmente bem porque não é apresentado apenas como uma fonte de informações para a investigação. Existe uma história muito mais complexa por trás de sua relação com Pete Willis e, principalmente, com o seu passado.
Robert De Niro, por sua vez, aproveita bem a experiência acumulada em personagens desse tipo, embora seu papel seja menos impactante do que poderia sugerir o peso de seu nome no elenco. Adam Scott é quem carrega boa parte do componente emocional da história. Tom é um pai fragilizado pelo luto e pela dificuldade de se conectar com o filho, e o desaparecimento de Jake transforma a investigação em uma tentativa desesperada de reparar também a própria relação familiar.

Tom Kennedy e Jake estão no centro do mistério | Foto: David Lee/Netflix
Embora se apresente como uma história sobre um serial killer, “O Homem Que Sussurra” é, em essência, um filme sobre paternidade. A trama coloca diferentes relações entre pais e filhos em paralelo e explora como violência, culpa, ausência e traumas podem atravessar gerações. É nesse aspecto que a história ganha uma dimensão mais interessante do que a simples caça a um criminoso.
O problema é que o roteiro nem sempre desenvolve essas relações com a profundidade necessária. Algumas questões importantes são apresentadas de maneira bastante direta, enquanto outras parecem existir apenas para conduzir a história até a próxima revelação. Ainda assim, ao deixar a investigação em segundo plano e se concentrar nos personagens, o filme encontra bons momentos.
É na reta final que “O Homem Que Sussurra” toma suas decisões mais ousadas. Sem entregar spoilers, Frank Carter ganha uma participação decisiva no desfecho, em uma sequência que dá outro peso à trajetória do personagem e à relação construída ao longo do filme.
É uma escolha que pode funcionar muito bem para quem compra a proposta mais psicológica e simbólica da produção, mas também pode causar estranhamento. O terceiro ato abandona parte do realismo estabelecido anteriormente e aposta em revelações e conexões que tornam a conclusão mais melodramática do que propriamente surpreendente.
Ainda assim, é justamente esse encerramento que dá a Michael Keaton uma das cenas mais marcantes de sua participação. O personagem, que já era uma das figuras mais interessantes da trama, ganha uma última camada que ajuda a explicar por que sua presença é tão importante para a história.
Vale a pena assistir?
“O Homem Que Sussurra” está longe de reinventar o thriller de serial killer. Quem já assistiu a muitos filmes do gênero, como “O Silêncio dos Inocentes”, provavelmente reconhecerá rapidamente suas referências, estruturas e alguns de seus caminhos narrativos.
Por outro lado, a produção tem uma atmosfera eficiente, um elenco competente e uma história que consegue manter o interesse até o fim. Michael Keaton é particularmente bem aproveitado, enquanto a relação entre Tom e o filho oferece ao filme um componente emocional que vai além da investigação.
O roteiro é seu ponto mais fraco, talvez, não por ser ruim. Há momentos previsíveis, coincidências convenientes e algumas escolhas no terceiro ato que podem dividir opiniões. Ainda assim, para quem procura um suspense sombrio, direto e com aquele sabor de thriller policial dos anos 1990, “O Homem Que Sussurra” entrega uma experiência envolvente. Não é um novo clássico do gênero, mas funciona como uma opção de entretenimento para quem gosta de mistérios envolvendo serial killers.
“O Homem Que Sussurra” está disponível na Netflix.