“Ato Noturno”, thriller erótico que disputa vaga do Brasil no Oscar, mistura desejo, política e perigo

“Ato Noturno”, thriller erótico que disputa vaga do Brasil no Oscar, mistura desejo, política e perigo

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

José Mion/Alô Alô Bahia

Divulgação via IMDb

Publicado em 07/09/2026 às 07:13

“Ato Noturno” é um filme que não tem vergonha de ser exatamente aquilo que pretende ser, um thriller erótico queer, provocador e visualmente estilizado, que transforma desejo e exposição em motores de uma história sobre ambição, política e repressão.

Dirigido por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, o longa acompanha Matias (Gabriel Faryas), um jovem ator de Porto Alegre que divide apartamento e disputa espaço profissional com Fábio (Henrique Barreira). Enquanto tenta conquistar um papel que pode mudar sua carreira, ele se envolve com Rafael (Cirillo Luna), um político em ascensão que, assim como Matias, precisa esconder parte de sua identidade para preservar a imagem pública.

Os dois encontram no sexo em lugares públicos uma espécie de território de liberdade. Só que, quanto maior o desejo de serem vistos, maior também é o risco de serem descobertos. Nessa contradição, o filme encontra uma de suas melhores ideias.

Matias é ator e Rafael é político. Os dois vivem de construir personagens para o público. Não por acaso, “Ato Noturno” transforma a ideia de performance em um dos pilares da narrativa. Durante o dia, os protagonistas precisam desempenhar os papéis que a sociedade espera deles. À noite, encontram outros espaços para experimentar uma versão mais livre de si mesmos.

A identidade visual é uma das grandes qualidades do longa. Matzembacher e Reolon não tentam esconder suas referências. “Ato Noturno” flerta claramente com o cinema de suspense erótico e constrói uma atmosfera noir, com neons, sombras, câmeras subjetivas, voyeurismo, enquadramentos pouco convencionais e mudanças de perspectiva, fazendo com que o espectador tenha constantemente a sensação de estar observando algo que não deveria.

A identidade visual é uma das grandes qualidades do longa

A presença do segurança Camilo, interpretado por Ivo Müller, acrescenta ainda um quê de filmes clássicos de suspense, especialmente pela maneira como o personagem se insere nesse universo de desejo, vigilância e estranheza. A trilha sonora também trabalha a favor desse clima, ajudando a criar uma atmosfera sensual e inquietante que acompanha os protagonistas durante boa parte da história.

Isso é fundamental para a proposta, já que o filme não quer apenas mostrar o desejo dos personagens, mas fazer o público experimentar a mesma mistura de curiosidade, medo e perigo. E faz isso sem qualquer pudor em relação à nudez e ao sexo. Em alguns momentos, essa construção é realmente muito eficiente e cria um universo próprio para a história.

Como Matias, Gabriel Faryas consegue transmitir simultaneamente ambição, insegurança, desejo e vulnerabilidade. O personagem está sempre tentando entender até onde pode ir para conseguir aquilo que deseja, seja na carreira ou na vida pessoal. O ator, em sua primeira produção de maior destaque, também entende muito bem a natureza física do papel. Há momentos em que o corpo e o olhar dizem mais do que os diálogos, e ele consegue sustentar essa tensão sem deixar o personagem superficial.

Henrique Barreira também chama atenção como Fábio, especialmente pela maneira como o personagem funciona como um contraponto a Matias. Existe entre os dois uma rivalidade que começa profissional, mas ganha outras camadas à medida que a história avança. Cirillo Luna, como Rafael, por sua vez, interpreta um homem dividido entre a imagem pública que precisa sustentar e os desejos que tenta esconder. O personagem poderia facilmente cair em um estereótipo, mas o filme procura mostrar as contradições que existem por trás dessa fachada.

O grande mérito de “Ato Noturno” está na disposição de seus realizadores de abraçar completamente a proposta. O sexo está no centro da narrativa e não aparece apenas como elemento decorativo ou provocação gratuita. Ele movimenta os personagens, interfere nas decisões e está diretamente relacionado à sensação de liberdade que eles procuram.

Henrique Barreira também chama atenção como Fábio

Quanto mais os personagens querem experimentar, mais próximos ficam de serem descobertos. E quanto maior o risco, maior parece ser também a excitação. Essa lógica faz com que o suspense tenha uma natureza diferente, já que não estamos apenas esperando para descobrir o que vai acontecer, mas observando os personagens deliberadamente se colocarem em situações cada vez mais arriscadas.

O filme, porém, não consegue sustentar essa mesma energia durante seus quase 120 minutos. A primeira metade é mais interessante justamente pela sensação de descoberta, enquanto conhecemos Matias, Rafael, Fábio e as regras daquele universo. Quando a trama começa a depender mais de intrigas, política, vigilância e reviravoltas, o roteiro perde parte da espontaneidade, mas não a ponto de desmerecer a obra.

Alguns diálogos se tornam excessivamente explicativos, determinadas situações exigem uma suspensão de descrença considerável e a história parece mais interessada em chegar ao próximo acontecimento do que em desenvolver seus personagens. A duração também poderia ser menor, considerando que há momentos em que a narrativa se alonga além do necessário e acaba enfraquecendo o impacto de ideias que funcionam melhor quando apresentadas de maneira mais direta.

Sem entregar spoilers, a reta final leva a lógica do filme ao limite. “Ato Noturno” não escolhe uma conclusão convencional e reserva para seus personagens uma decisão inusitada, capaz de definir os rumos de seus futuros.

O filme faz uma escolha interessante, já que ao invés de explicar tudo ou oferecer uma resposta confortável, deixa parte da interpretação nas mãos do espectador. O que Matias e Rafael decidem fazer pode ser entendido de diferentes maneiras, e as consequências dessa escolha dão ao encerramento uma força que vai além da resolução da trama.

Ainda que o caminho até esse encerramento seja mais irregular do que poderia, a decisão final deixa uma impressão forte e permite que o espectador tire suas próprias conclusões sobre o que ela representa para os dois.

“Ato Noturno” está longe de ser perfeito. O roteiro tem inconsistências, algumas escolhas narrativas parecem forçadas e a duração poderia ser mais enxuta. Mas é difícil não reconhecer sua personalidade. Matzembacher e Reolon fazem uma escolha pouco comum no cinema brasileiro contemporâneo ao abraçarem o gênero sem tentar domesticá-lo. Fazem um thriller erótico queer, assumidamente sensual, estilizado e exagerado, e colocam Porto Alegre, uma cidade tida como conservadora, no centro dessa fantasia.

O resultado é muito mais interessante do que seria um filme preocupado apenas em contar sua história de maneira convencional e essa disposição de correr riscos é justamente o que faz “Ato Noturno” se destacar entre os filmes brasileiros que disputam uma vaga no Oscar. Não é uma obra que busca agradar a todo mundo. É um filme que quer provocar, seduzir e deixar o espectador desconfortável e consegue.

“Ato Noturno” está disponível para aluguel e compra na Apple TV.

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