Qual mulher largou a família rica para ser freira, fez voto de pobreza e dedicou sua vida aos pobres e doentes, tornando-se uma espécie de santa ainda em vida, popularmente conhecida em Salvador? Para qualquer baiano, a resposta estaria na ponta da língua: Santa Dulce dos Pobres. Pode ser, mas desta vez não é. Um outro nome, que viveu bem antes dela, também teve essa fama e quase foi a primeira santa do Brasil.
Madre Vitória da Encarnação tem sua vida cercada de mistérios, fé, sacrifícios extremos e misericórdia, principalmente para escravizados da época. Afinal, quem foi esta Madre que acolhia escravizadas doentes no seu quarto, ao mesmo tempo que colocava na boca uma canela humana em putrefação como sinal de penitência?
Não se sabe ao certo quando houve esse apagamento histórico de uma figura como Vitória. Nem mesmo os religiosos sabem ao certo quem foi ela. “Quem? Não conheço. Ela viveu quando? Não foi canonizada por quê? Meu Deus, nunca ouvi falar de Madre Vitória da Encarnação. Onde procurar sobre ela?”, disse a católica Rita Belens, uma religiosa de carteirinha, daquelas que vão à missa todo dia e cuja TV fica ligada na Canção Nova quase 24 horas. De fato, pouca gente conhece.
Seus restos mortais estão no Convento do Desterro, onde ela passou boa parte de sua vida. No local, é possível conhecer o quarto em que dormia, onde morreu, entre outras relíquias, como o crânio da freira, guardado em uma caixa da época. Inclusive, sua história fascinou uma jovem chamada Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, que, inspirada na história de Encarnação, resolveu ser freira no Desterro, mas acabou rejeitada pela pouca idade. Mais tarde, ela se tornaria Irmã Dulce.
Contudo, ao contrário do Anjo Bom mais recente, a vocação religiosa custou a entrar na vida da “menina cabeçuda”, como descreveu, de forma humorada, Amélia Rodrigues em sua obra sobre a Madre Vitória. O pai, um religioso fiel, queria ver a filha, ou melhor, as duas filhas, freiras. A mais velha, Maria da Conceição, aceitou de bom grado, mas ele recebeu uma resposta desaforada de Vitória: “É mais fácil me cortar a cabeça do que eu ser freira”, disse a rebelde, na época com 16 anos, para o pai, um militar de alta patente e dono de terras, inclusive tendo sido responsável pelas primeiras expedições no interior do Ceará. Estudos indicam que ele foi o fundador e proprietário de terrenos que posteriormente se tornaram a cidade cearense de Icó.
O tempo passou e, segundo a biografia escrita por Dom Sebastião Monteiro da Vide, Vitória passou a sonhar com o próprio Menino Jesus, na companhia de Nossa Senhora. Ele lhe oferecia lindas flores, e ela aceitava de bom grado. Depois, Cristo Criança dizia para ela colher mais no Convento do Desterro, pois lá as rosas seriam ainda melhores. “Desse jeito eu me recuso!”, dizia ela, despertando em seguida. Até que um sonho mudou tudo. Já aos 25 anos, em 1686, sonhou que estava nos porões de um navio escuro, com pessoas ‘perdidas’, enquanto outras, acima, viviam felizes. O sonho foi interpretado como um ultimato divino.
É preciso entender o contexto histórico vivido pela freira baiana. Madre Vitória da Encarnação viveu em um período colonial, entre 1661 e 1715. Era uma Salvador bem católica, arcaica e cheia de miséria. Era, inclusive, normalizado ter uma escravizada como serva, inclusive no próprio Convento Santa Clara do Desterro. Muitas internas, com vocação ou não, viveriam suas vidas no local e os pais mais afortunados ajudavam nas despesas, inclusive com escravizadas auxiliando na limpeza e em outros afazeres do convento. Curiosamente, nessa época, Madre Vitória dividia sua cronologia histórica com Gregório de Matos, para quem há relatos de que gostava de frequentar os muros do Desterro em busca das virgens que lá habitavam. Não há nenhum registro de ligação entre essas duas personalidades baianas.

Vitória da Encarnação. Foto: Sora Maia/CORREIO
Pois bem. Encarnação poderia ter regalias, mas abdicou de todas, doando tudo que tinha e que era recebido como dote pela família. Como fez o voto de passar o resto da sua vida no convento, Vitória utilizava uma pequena janela gradeada e a roda dos enjeitados no parlatório para fazer suas doações, rezar pelos miseráveis e tentar cuidar dos enfermos. Todo dia chegava gente para pedir ajuda à Madre, formando longas filas. Sua fama de anjo bom passou a circular pela cidade. Há relatos de que ela, quando não podia abrigar doentes, pedia para que sua família os recebesse em sua casa.
“Madre Vitória tirava as próprias roupas para poder colocar ali e dar às pessoas. No passado, havia vários moradores de rua, mendigos, que vinham até aqui para pedir à Madre Vitória alguma assistência material ou até mesmo espiritual. Ela dava comida, tudo que tinha ao seu alcance. Toda hora chegavam pessoas pedindo oração ou algo para comer. E ela estava lá”, disse o professor e especialista na obra de Vitória, Thiago Felipe.
Dentro do convento, ela também decidiu fazer um voto de pobreza. Passou a limpar o lugar junto com as servas e abdicou de tudo mundano. Sua cela, inclusive, era a mais simples do local. “A gente tem uma espécie de reconstrução da cela da Madre Vitória. E a gente vê que é uma cela vazia. Por quê? Segundo as narrativas biográficas, a cela da Madre Vitória era bem simples, porque todos os seus pertences que lhe davam conforto, como tapetes, colchões, toalhas e cobertas, eram doados aos pobres. E ela dormia no chão, com a cabeça reclinada numa pedra, e praticamente fazia da cela dela um espaço para oração”, disse Thiago.
Não apenas de oração. Escravizadas doentes, que geralmente eram expulsas do convento e certamente teriam a morte como destino, acabavam parando na cela de Vitória, como narra Dom Sebastião Monteiro da Vide em seu livro sobre a baiana, escrito em Roma no ano de 1720, apenas cinco anos depois da morte de Encarnação.
Beatificação
O processo de beatificação de Vitória, no contexto cronológico, é um dos mais longos ainda abertos no Vaticano. Cinco anos após sua morte, em 1720, Dom Sebastião Monteiro da Vide deu início aos trâmites para que ela virasse a primeira santa brasileira. Contudo, dois anos depois, Vide morreu, e ninguém mais deu prosseguimento à beatificação. Em 2015, após 300 anos de sua morte, Dom Murilo Krieger decidiu tirar Vitória da Encarnação do esquecimento e convocou a Igreja para divulgar sua história. Em 2019, seu processo de beatificação foi reaberto e segue os tramites, sem previsão de conclusão.
Vitória morreu no próprio Convento do Desterro. Já bem debilitada, foi colocada em outra cela, mais confortável. Lá, ela pediu que fosse enterrada sem caixão e com roupas doadas. Curiosamente, morreu numa sexta-feira, possivelmente por fraqueza por conta das feridas causadas pelas penitências. Pediu que seu corpo fosse conduzido por escravizadas, mas as irmãs se negaram. Quando morreu, relatos indicam que seu corpo pesou a tal ponto que as madres não conseguiam levantá-lo, só sendo possível quando escravizadas o pegaram.
Seus restos mortais estão na igreja, em um local que antes era destinado aos escravizados católicos, no fundo da catedral. Todo dia 19 de cada mês, às 15h, o Desterro faz um turismo religioso mostrando as relíquias e pertences de Vitória, que também tinha fama de encontrar coisas (ou almas) perdidas. Não precisa agendar. No seu santuário, ex-votos vindos do país inteiro mostram pessoas que tiveram bens perdidos, mas acabaram encontrados graças a ela.
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