“Quinze Dias” cheg0u na última semana à Netflix com uma história que, à primeira vista, parece seguir uma fórmula bastante conhecida dos romances adolescentes. Há o garoto tímido, as inseguranças da idade, a paixão inesperada e aqueles dias capazes de parecer uma eternidade quando se está descobrindo o que se sente por alguém. Mas é justamente na forma como escolhe contar essa história que o filme encontra seu maior acerto.
Adaptado do livro de Vitor Martins, o longa acompanha Felipe durante um período que promete mudar sua rotina e, aos poucos, também sua relação consigo mesmo. Entre constrangimentos, descobertas e o inevitável frio na barriga do primeiro amor, “Quinze Dias” constrói uma comédia romântica delicada e fácil de acompanhar, com personagens que carregam inseguranças bastante reconhecíveis para quem já atravessou ou ainda atravessa a adolescência.
O filme não ignora questões como bullying, gordofobia, homofobia e os conflitos que podem surgir dentro de casa. Elas estão presentes e ajudam a construir os medos e as hesitações dos personagens. A diferença é que “Quinze Dias” não permite que a dor engula completamente a história. Em vez de transformar uma narrativa LGBTQIA+ em mais um retrato de sofrimento, o longa abre espaço para o humor, para a amizade, para os constrangimentos divertidos e, principalmente, para a possibilidade de viver um romance.
Essa talvez seja sua maior qualidade. Existe algo especialmente bonito em assistir a uma história de amor entre dois adolescentes gays que não precisa ser, o tempo inteiro, uma tragédia. Felipe e Caio podem simplesmente experimentar aquilo que tantos romances adolescentes já mostraram durante décadas, que é a ansiedade antes de uma aproximação, a dúvida sobre o que o outro sente, os olhares, as mensagens e a sensação de que qualquer pequeno gesto pode significar tudo.
“Quinze Dias” também não esconde seu lado mais convencional. Em alguns momentos, a trama segue caminhos previsíveis e resolve determinados conflitos com uma rapidez que poderia dar mais espaço às consequências emocionais dos personagens. Não é um filme interessado em reinventar a comédia romântica. Sua simplicidade faz parte da proposta e funciona justamente porque o longa parece confortável com aquilo que quer entregar.
No fim, “Quinze Dias” é um filme de coração aberto. Pode não ser revolucionário em sua estrutura, mas entende a importância de oferecer uma história LGBTQIA+ brasileira em que o amor não precisa ser acompanhado, obrigatoriamente, pela tragédia. É leve, romântico, por vezes previsível e até um pouco constrangedor, como costumam ser os primeiros amores. E talvez seja exatamente por isso que deixa aquela sensação boa de terminar a sessão com o coração quentinho.