A Festa da Boa Morte, tradicional celebração realizada por uma irmandade de mulheres negras em Cachoeira, no Recôncavo baiano, chegou ao fim nesta segunda-feira (17) após três dias de procissões, música e fé. Para a jornalista e pesquisadora Cleidiana Ramos, doutora em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e estudiosa das festas populares baianas, a manifestação é “uma festa complexa e mágica que celebra a morte como parte da vida”.
Em entrevista ao Alô Alô Bahia, Cleidiana explica que a Boa Morte integra o conjunto de bens culturais reconhecidos como patrimônio imaterial da Bahia, mas que essa categoria de reconhecimento é relativamente recente e resultado de uma longa disputa simbólica. O debate sobre o que constitui patrimônio no Brasil ganhou força a partir da década de 1930, no governo Vargas, quando o país passou a construir oficialmente uma ideia de identidade nacional. “Até hoje considero que Vargas percebeu algo crucial: a gente não é uma nação, mas uma união de estados que sempre se detestou”, avalia a pesquisadora. Foi nesse contexto que o Estado brasileiro começou a eleger o que seria digno de preservação.
Um patrimônio de pedra e cal
De acordo com Cleidiana, os primeiros bens tombados no país, a partir de 1937, refletiam uma concepção estritamente material de patrimônio. “Ironicamente, os patrimônios reconhecidos a partir de 37 foram todos de pedra e cal: casarões, sobrados e igrejas católicas”, relata. “Criamos uma lei de patrimônio muito associada a uma ideia de materialidade, aquilo que se toca.”
Essa lógica só começou a ser questionada de forma mais contundente a partir da década de oitenta, quando o terreiro da Casa Branca, no bairro do Engenho Velho da Federação, em Salvador, se tornou o centro de uma discussão que mudaria os rumos da política de patrimônio no Brasil. “Em 1984, Olímpio Serra, ligado ao IPHAN, dadas as dificuldades do terreiro da Pedra Branca, ele e seu grupo, associados à própria comunidade da Casa Branca, pediram que o terreiro fosse considerado patrimônio”, conta Cleidiana.

Reprodução Arquivo Pessoal
A proposta gerou controvérsia. “Criou-se uma polêmica grande na época, o conselho consultivo do IPHAN veio a Salvador, e ela terminou empatada”, relembra. De um lado, argumentava-se que não havia o que tombar, já que se tratava de um conjunto de terrenos registrados em nome de pessoas físicas. Do outro, defendia-se que o valor do bem não estava na materialidade, mas em algo mais profundo: “O outro grupo dizia: ‘tem sim valor, porque o valor não é o que se toca, é o que emana desse bem'”. Foi esse embate que deu origem à noção de patrimônio imaterial no país — e, com ela, ao primeiro reconhecimento de um bem de origem afro-brasileira como patrimônio nacional.
Uma batalha secular
Para Cleidiana, esse reconhecimento tardio representa a vitória de uma disputa que já vinha sendo travada havia séculos, tanto pelas comunidades negras quanto no campo intelectual. Ela cita o exemplo de Manuel Querino (1851 – 1923), intelectual baiano do início do século XX que já defendia que “não existe cultura brasileira sem a contribuição do colono negro” e que teria inspirado Jorge Amado a criar o personagem Pedro Arcanjo, de “Tenda dos Milagres”.
A pesquisadora faz questão de relembrar da socióloga Lélia Gonzalez, autora de “Festas Populares no Brasil”, para reforçar seu argumento: as festas de rua sempre foram uma forma de a população negra criar e estabelecer parâmetros culturais que hoje constituem a base do patrimônio brasileiro.
A festa das “negras do partido alto”
É nesse contexto histórico que a Festa da Boa Morte se insere. Realizada desde o século XIX no Recôncavo baiano, a celebração conseguiu preservar parte de seu patrimônio arquitetônico original e é conduzida por uma associação de mulheres (a quase mítica Irmandade da Boa Morte) que funciona quase como uma sociedade secreta. “Só entra quem é escolhida. Você não sabe determinados ritos que são feitos dentro da irmandade”, descreve Cleidiana. A associação foi formada por mulheres negras emancipadas, algumas das quais chegaram a enriquecer e ficaram conhecidas como “negras do partido alto”.

Rita Barreto SETUR
“É uma festa de opulência: comida farta, que é distribuída a todos, seda, richelieu, calçadas, muitas joias”, enumera. Segundo ela, é justamente nesse contexto de fé e celebração que as integrantes da irmandade transmitem, ao longo de três dias, um dos dogmas marianos mais complexos da teologia católica. “Elas conseguem ensinar nesses três dias um dos dogmas marianos mais completos da teologia católica: o dogma da dormição e assunção de Maria”, explica. A devoção está associada à ideia de Nossa Senhora como aquela “que livra de uma morte ruim”, concepção que dialoga diretamente com uma cosmovisão africana sobre a existência.
“Isso vai ao encontro de um pensamento africano: a morte como parte da vida. A Boa Morte é isso: a pessoa vai ser lembrada como ancestral”, resume, definindo a festa como uma expressão viva do que chama de afrocatolicismo, a fusão entre ancestralidade afro-brasileira e catolicismo popular, que lida ao mesmo tempo com a morte e a vida.
Sagrado, profano e dinheiro
Questionada sobre os aspectos econômicos da celebração, que atrai visitantes de diferentes partes do mundo para a pequena Cachoeira, Cleidiana pondera que a movimentação financeira sempre fez parte da dinâmica das grandes festas populares. “Festa tem que mover dinheiro, sempre foi assim”, diz. Para ela, o debate relevante não é se a festa gera receita, mas para onde esse dinheiro vai. “O que a gente precisa discutir é: para onde vai esse dinheiro? A Boa Morte tem saídas orçamentárias próximas das que ela administra?”, questiona. Neste último ano, Cachoeira recebeu mais de 100 mil turistas para acompanhar os festejos, segundo informações disponibilizadas pela própria Irmandade.
A pesquisadora também destaca que a Festa da Boa Morte, como outras manifestações populares baianas, escapa a qualquer tentativa de separação rígida entre os planos sagrado e profano. “Não há separação entre sagrado e profano, as festas são incontroláveis”, defende.