O monólogo da atriz Fernanda Torres é um sucesso já há anos, mas ele não teria existido se não fosse o livro homônimo escrito por um baiano. João Ubaldo Ribeiro causou sensação no mundo literário quando lançou esta obra tão curta quanto provocadora, ainda em 1999.
O livro foi o sétimo mais vendido no país no ano do seu lançamento, iniciando uma trajetória de sucesso que acabaria desembocando na peça da vencedora do Globo de Ouro, cuja primeira montagem aconteceu já em 2003. Ou seja, há quase um quarto de século, Fernanda Torres dá voz ao texto pouco comportado de um dos maiores autores baianos de todos os tempos.
Saiba mais sobre o livro de João Ubaldo Ribeiro
“A Casa dos Budas Ditosos” foi escrito por João Ubaldo Ribeiro escrito para a coleção Plenos Pecados, dedicada aos sete pecados capitais. Representando a luxúria, o livro assume a forma de um suposto depoimento gravado em fitas cassete por uma mulher baiana de 68 anos, identificada apenas pelas iniciais CLB, cuja história teria sido apenas transcrita pelo autor.
Ao longo da narrativa, CLB relembra sua trajetória sexual com franqueza, humor e absoluta ausência de culpa. A protagonista narra com detalhes nada comedidos sobre sua iniciação sexual com seu próprio tio, sobre seus relacionamentos com homens de várias nacionalidades, sobre sua relação nada usual com a religião cristã. Tudo com uma combinação típica de João Ubaldo de erudição e oralidade.
O que a crítica falava do livro quando ele foi lançado
No artigo “Literatura, erotismo e transgressão: a recepção crítica do romance A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, na imprensa brasileira”, as pesquisadoras Izenete Nobre Garcia e Leoneza Rosa Pereira, da Universidade Estadual do Maranhão, analisaram com profundidade o que diziam os jornais na época do lançamento da obra.
Segundo o levantamento das pesquisadoras, que vasculharam o acervo da Hemeroteca Digital Brasileira e do jornal O Estado de São Paulo, a recepção da obra em 1999 foi tudo menos unânime.
O próprio jornal paulista publicou, na mesma edição, duas resenhas com leituras opostas: uma tratava o livro como um “elogio da luxúria” dentro do campo erótico, enquanto a outra o classificava como “um exercício refinado de pura devassidão”, quase no limite do pornográfico.
Essa oscilação também apareceu dentro da revista Manchete. Em maio, a crítica elogiava o livro mas fazia questão de rebaixar suas pretensões literárias, chamando-o de “divertido, porém pouco inventivo”.
O próprio autor, questionado sobre os limites entre erotismo e pornografia, preferia não resolver a polêmica: disse à Manchete que a fronteira entre os dois termos era “fluida” e “imprecisa”, e que não sabia dizer, com certeza, de qual lado seu livro ficava.
Para as pesquisadoras, é justamente essa indefinição que explica a sobrevivência do texto: um romance capaz de gerar tanto reprovação moral quanto elogio literário na mesma semana é, também, um romance difícil de esquecer, o que ajuda a entender por que, quase 25 anos depois, esse texto continua enchendo teatros pela voz de Fernanda Torres.
Neste fim de semana, haverá cinco apresentações da peça no Teatro Castro Alves. Ainda há ingressos disponíveis.