A morte de Sam Neill, aos 78 anos, despertou curiosidade sobre um dos tratamentos mais promissores da oncologia. Conhecido por dar vida ao paleontólogo Alan Grant na franquia Jurassic Park, o ator conviveu por cerca de três anos com um linfoma não Hodgkin e permaneceu em remissão após receber a terapia CAR-T, indicada quando o câncer deixa de responder aos tratamentos convencionais.
Neill tornou público o diagnóstico em 2023. Na época, contou que procurou atendimento médico após notar um caroço no pescoço durante uma turnê de divulgação. Inicialmente, a quimioterapia conseguiu controlar a doença, mas o tratamento perdeu eficácia com o passar do tempo. Foi nesse momento que a equipe médica optou pela terapia celular, considerada uma das principais inovações no combate aos cânceres hematológicos.
A CAR-T é um tipo de imunoterapia personalizada que utiliza as próprias células de defesa do paciente para combater o câncer.
O processo começa com a coleta dos linfócitos T, responsáveis pela resposta imunológica do organismo. Em laboratório, essas células passam por uma modificação genética para receber um receptor capaz de identificar proteínas presentes nas células tumorais. Depois de multiplicadas, elas são devolvidas ao organismo por meio de uma infusão intravenosa e passam a reconhecer e destruir as células cancerígenas de forma mais precisa.
Ao contrário da quimioterapia, que também atinge células saudáveis durante o tratamento, a CAR-T atua de maneira direcionada sobre o tumor.
A terapia CAR-T já conta com produtos aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para alguns tipos de câncer do sangue. Além disso, instituições brasileiras como a USP, o Instituto Butantan e o Hospital Israelita Albert Einstein desenvolvem versões nacionais da tecnologia, que apresentaram resultados promissores em estudos clínicos.
Apesar dos avanços, o acesso ainda é limitado. O tratamento exige centros altamente especializados, equipes treinadas e infraestrutura específica, além de ter um custo elevado, o que restringe sua oferta a um número reduzido de pacientes.
O caso de Sam Neill ajudou a dar visibilidade a uma terapia que vem transformando o tratamento de pessoas com cânceres hematológicos avançados e representa uma das maiores apostas da medicina para ampliar as chances de remissão em pacientes que já esgotaram outras alternativas.