A visita oficial do Alaafin de Oyó, Sua Majestade Imperial Ọba Akeem Abimbola Owoade I, à Bahia marca um novo capítulo na relação histórica entre Brasil e Nigéria. À frente de uma comitiva do Reino de Oyó, o monarca participa, até este sábado (4), de uma programação acadêmica, diplomática e cultural voltada ao fortalecimento da cooperação entre os dois países e à preservação do patrimônio da civilização iorubá.
A agenda teve início durante a abertura da 4ª Conferência Internacional LASUCAS – Cooperação Sul-Sul, realizada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), que reuniu representantes da Nigéria e do Brasil para discutir o papel das duas nações na colaboração entre economias emergentes. Na ocasião, também foi lançado o livro “Oyó: A Cidade do Patrimônio Cultural Iorubá”, fruto de uma parceria entre a UFBA, o Palácio Real de Oyó e universidades nigerianas, como parte das iniciativas para o reconhecimento internacional da cidade como Patrimônio Mundial.
Um dos momentos mais simbólicos da visita ocorreu nesta quarta-feira (1º), quando a comitiva foi recebida na Casa de Oxumarê (Ilé Òṣùmàrè Àṣẹ Àràká Ògódò), um dos mais tradicionais terreiros de candomblé da Bahia. O terreiro teve papel decisivo na aproximação institucional entre Salvador e a antiga capital do Império Iorubá, liderando ações em defesa da preservação do patrimônio histórico, religioso e cultural de Oyó.

Rei de Oyó e Babá Pecê, babalorixá da Casa de Oxumarê
Essa articulação começou em 2014, quando integrantes da Casa de Oxumarê visitaram a cidade nigeriana e identificaram a situação de vulnerabilidade de importantes monumentos e espaços sagrados. A partir daí, foi construída uma ampla rede de cooperação envolvendo outros terreiros matrizes da Bahia, como a Casa Branca do Engenho Velho, Ilê Axé Opô Afonjá, Terreiro do Gantois e Terreiro Alaketu, além de instituições como o IPHAN, a UNESCO e órgãos brasileiros e nigerianos.
A iniciativa promoveu um intercâmbio cultural inédito entre os dois países e trouxe à Bahia, ainda em 2014, o então Alaafin Olayiwola Adeyemi III, em uma visita dedicada à troca de experiências sobre preservação do patrimônio cultural.
Considerada o principal centro histórico da civilização iorubá, Oyó foi capital de um dos maiores impérios da África Ocidental e desempenhou papel fundamental na difusão da língua, das tradições religiosas e do sistema político iorubá por territórios que hoje correspondem à Nigéria, Benim, Togo e Gana. Com a diáspora africana, esse legado atravessou o Atlântico e encontrou na Bahia um de seus principais espaços de preservação.
Para o babalorixá da Casa de Oxumarê, Sivanilton Encarnação da Mata, o Babá Pecê de Oxumarê, a visita simboliza o reconhecimento de uma história construída coletivamente entre comunidades tradicionais dos dois lados do oceano. “A cultura iorubá chegou à Bahia pelas mãos dos nossos ancestrais e encontrou aqui um território de resistência, preservação e continuidade. Quando iniciamos esse diálogo com Oyó, compreendemos que preservar a antiga capital do Império Iorubá significava também proteger a memória de parte da nossa própria história. A visita do Alaafin reafirma que Bahia e Nigéria compartilham um patrimônio vivo, construído pela ancestralidade, pela espiritualidade e pelo compromisso das comunidades tradicionais em manter esse legado para as futuras gerações”, afirma.