Reginaldo Passos estava confiante de que era sua tarde de glória. Nem o calor de uma quinta-feira de outono, que transformava Salvador numa espécie de sucursal do inferno mesmo com chuva, tirava sua vontade de beber uma cachaça especial. Mas não era qualquer uma. Era uma garrafa rara, escura e empoeirada, encostada na parede como um verdadeiro “santo graal”.
“Tome”, disse, ao jogar a chave do carro no balcão em troca da bebida. A resposta veio rápida. “Guarde seu carro, aqui você nunca vai beber dela”, retrucou Gino, dono do Recanto do Gino, bar localizado ao lado do Elevador Lacerda e conhecido por reunir milhares de rótulos. “Aquela garrafa nem quem fabricou tem mais”, completou.
O espaço mistura bodega raiz com um museu informal da cachaça. Ao todo, são mais de 7 mil garrafas, muitas delas raras ou até únicas. Algumas nem possuem mais rótulo, apenas marcas do tempo.
O Recanto do Gino fica em uma das áreas mais turísticas da cidade, em frente ao Mercado Modelo. Apesar da vizinhança famosa, o bar chama atenção pelo acervo e pela organização peculiar. É um verdadeiro mergulho na história da bebida mais tradicional do país.
Entre as relíquias, há exemplares que nem os próprios fabricantes possuem mais. “Já teve gente oferecendo muito dinheiro, mas não vendo. Se abrir, perde o valor histórico”, explica Gino, que dedica mais de 50 anos à coleção.
Uma das raridades é a cachaça Havana de décadas passadas, hoje considerada item de colecionador. Enquanto versões atuais já têm alto valor, as guardadas no bar são praticamente incalculáveis.
Apesar de ser referência no assunto, Gino não bebe há mais de 30 anos. Ainda assim, conhece cada detalhe das bebidas que guarda. “Hoje identifico só pelo cheiro e pela aparência”, afirma.
O bar também vende cachaças mais acessíveis e petiscos típicos, como torresmo e calabresa, atraindo tanto turistas quanto frequentadores antigos. Muitos voltam não apenas pela bebida, mas pelas histórias.
Frequentador assíduo, Antônio Carlos, que vive na França, faz questão de visitar o local sempre que está na cidade. “Tento comprar uma dessas antigas, mas ele nunca vende. Já ofereceram até casa”, conta.
Mesmo com o reconhecimento, Gino já pensa em se aposentar, mas ainda não decidiu quem ficará responsável pelo acervo. “Tenho um compromisso com isso aqui”, diz.
Enquanto isso, o Recanto segue como um dos lugares mais autênticos de Salvador, onde a cachaça vai além do consumo. Ali, ela é memória, cultura e história — muitas vezes servida mais na conversa do que no copo.