Salvador é daquelas cidades que dá pra “ler” a história só olhando ao redor. Entre casarões antigos e construções mais recentes, alguns edifícios chamam atenção não só pela altura ou pelo lugar onde estão, mas pelo que dizem sobre diferentes épocas da cidade.
Do pioneiro Edifício Oceania, considerado o primeiro “arranha-céu” da Bahia, até a arquitetura moderna da Casa do Comércio, passando pelo estilo mais bruto do Edifício Monsenhor Marques e do prédio da Assembleia Legislativa, essas construções ajudam a desenhar a cara de Salvador.
Espalhados por bairros como Barra, Graça, Politeama e o centro financeiro, esses prédios acompanham o crescimento da cidade, a verticalização e as influências culturais que foram chegando ao longo do tempo. Lugares como o Orixás Center, o Edifício Comendador Urpia, o Edifício Módulo e o Edifício Sulacap acabam virando pontos de referência não só no mapa, mas também na memória de quem vive ou passa por Salvador.
Os edifícios mostram como a cidade foi se transformando, com uma junção de estilos, histórias e culturas diferentes, até formar essa mistura tão própria que Salvador tem. Conheça abaixo a história dos prédios com arquitetura mais marcante de Salvador:
Oceania
Considerado o primeiro “arranha-céu” da Bahia, o Edifício Oceania começou a ser construído na década de 1930, porém, só foi concluído no ano de 1943, devido a falta de materiais causada pela Segunda Guerra Mundial. Com localização privilegiada no bairro da Barra, o prédio é tombado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia desde 2008 e traz referências de diversos movimentos arquitetônicos europeus como a Art déco, Cubismo e o Modernismo.
Com 12 andares, oito pavimentos, cinco elevadores e quarenta e oito apartamentos contando com três e quatro quartos, todos com vista para o mar, é também o primeiro prédio a ser construído voltado para a Baía de Todos-os-Santos e já chegou a abrigar diversos empreendimentos como cassinos, sauna, boate, sorveteria, teatro e galeria de arte. Considerado uma das residências mais tradicionais e valorizadas da capital baiana, o local já hospedou figuras como Pelé, Bono Vox e Xuxa, além de ser moradia de atores como Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta.

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Casa do Comércio
Inaugurado em 1988, o edifício Casa do Comércio Deraldo Motta foi projetado por Fernando Frank, Otto Gomes e Jader Tavares e é considerado um verdadeiro ícone da arquitetura moderna em Salvador. Com 54 metros e 11 andares, o prédio se destaca pela sua ousadia estética, com forte presença de estrutura metálica em vermelho e preto, sendo uma das primeiras obras na Bahia a integrar aço e concreto de forma expressiva. Além do vanguardismo arquitetônico, o edifício é considerado o coração da Avenida Tancredo Neves, principal centro financeiro da capital baiana, tendo sido um dos primeiros empreendimentos erguidos naquela região no final dos anos 80, época em que o bairro do Comércio concentrava a maioria das empresas.
Frequentemente elogiado por sua “linguagem high-tech” e por quebrar o conceito tradicional de edifícios “caixa” na capital baiana, o prédio foi projetado para integrar a Federação do Comércio (Fecomércio), o Serviço Social do Comércio (Sesc) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e passou por um retrofit entre os anos de 2018 e 2021. Além disso, abriga o Teatro Sesc Casa do Comércio, com capacidade para mais de 500 lugares, sendo um importante espaço cultural da cidade. Vale destacar ainda a presença da escultura em ferro “O Cruzeiro”, do artista plástico Mário Cravo Júnior, numa das laterais.

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Monsenhor Marques
O edifício Monsenhor Marques, localizado no Largo da Vitória, uma das áreas residenciais mais nobres e históricas de Salvador, é considerado um verdadeiro ícone da arquitetura brutalista. Projetado em 1975 pelo arquiteto japonês Yoshiakira Katsuki, com colaboração de Aurélio Miranda, Jorge Maldonado e Moritaka Hisanori, o prédio é reconhecido pela sua estrutura marcante em concreto aparente e por ser um clássico da modernidade baiana, valorizando a textura do concreto, formas geométricas sólidas e funcionalidade.
Considerado um símbolo da verticalização da cidade, quando famílias tradicionais começaram a trocar mansões por apartamentos, o prédio chama a atenção pelos seus pilares em formato de Y. Outro destaque fica por conta do painel de pedras portuguesas assinado por Juarez Paraíso, que está na frente do prédio desde 78.

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Palácio da Assembleia
O Palácio da Assembleia, situado entre a Graça e o Campo Grande, é um representante do estilo brutalista construído na década de 1970 no local da antiga sede, no centro da cidade. Tombado pelo IPAC, o edifício conta com projeto assinado pelos arquitetos Ary Magalhães, Maria do Socorro Fialho e Manoel Pedro Andrade Júnior e segue um modelo simplificado, refletindo a evolução da ALBA, que funcionou anteriormente no Convento do Carmo.
Entre as características mais marcantes da edificação, estão o concreto aparente e a estrutura volumosa. O local se destaca ainda por sua semelhança intencional com o Palácio do Planalto, local do gabinete da Presidência da República. A experiência modernista de Brasília o trabalho do arquiteto Oscar Niemeyer, foram grandes inspirações para a concepção do projeto.

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Orixás Center
O Orixás Center, inaugurado em 1973 no Politeama, é um dos shoppings mais tradicionais de Salvador, conhecido por sua arquitetura dos anos 70. Construído por Luiz Pereira de Araújo, o empreendimento integrou um conjunto de edifícios batizados com nomes de Orixás e tem uma história ligada tanto ao desenvolvimento urbano da cidade quanto à valorização da cultura afro-baiana.
Com dois pavimentos e 171 lojas, o prédio mudou o seu perfil ao longo dos anos, passando de um centro de arte e comércio diversificado para um polo mais popular de serviços, incluindo aluguéis de roupas, fantasias, mega hair, escritórios, salões e lanchonetes. O local já abrigou a famosa Galeria Grossman, um ponto badalado de exposições de arte baiana na década de 1970.

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Edifício Comendador Urpia
Famoso pelos pilares de sustentação em “V”, o Edifício Comendador Urpia chama a atenção de quem passa pela movimentada avenida Euclydes da Cunha, no bairro da Graça. Projetado em 1954 pelo renomado arquiteto e urbanista baiano, Diógenes de Almeida Rebouças (1914 – 1944), o edifício é inspirado no arquiteto Oscar Niemeyer, com referências a projetos como o empreendimento do Ministério da Educação e Saúde (Palácio Gustavo Capanema), no Rio de Janeiro. O Comendador Urpia combina gradis na sua fachada, simplicidades na linhas e outros elementos tornando um dos ícones da arquitetura modernista da Bahia.
Desde a década de 1970, o prédio residencial passou por algumas mudanças com o objetivo de se adaptar a novas realidades como ampliação da garagem, com retirada de estruturas originais, fechamento de varandas, alterações na fachada e intervenções individuais em apartamentos. O prédio não possui proteção legal específica, o que acende o debate sobre a importância desse tipo de preservação arquitetônica.

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Módulo
Outro ícone da arquitetura baiana é o edifício Módulo, localizado na avenida Princesa Isabel, na Barra. Projetado por Rui Quadros e construído pela construtora Conjunto, em 1980, o prédio é um dos empreendimentos tradicionais da região que se destaca pela estrutura circular, o que faz com que os apartamentos tenham plantas trapezoidais, diferenciando de outros prédios residenciais.
Conhecido como “prédio redondo da Barra”, o edifício Módulo é composto por 12 andares, sendo um produto da arquitetura desenvolvimentista, com grandes estruturas de concreto e formas geométricas marcantes. Por isso, é frequentemente mencionado em estudos sobre a paisagem de Salvador e é um exemplo na construção de prédios com estruturas cilíndricas.

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Sulacap
O edifício Sulacap, importante patrimônio histórico e cultural da cidade, foi inaugurado em 1946, na avenida Sete de Setembro, no Centro de Salvador. Projetado pelos arquitetos Anton Floderer e Robert Prentice, o empreendimento foi tombado pelo IPAC (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia), sendo reconhecido como um marco arquitetônico da art déco (movimento pós Primeira Guerra Mundial de arte, design e arquitetura).
Com oito pavimentos e subsolo, totalizando 4.000m² de área construída, o edifício foi projetado para o mercado financeiro e tornou-se um ícone comercial. Possui uma localização privilegiada para a Praça Castro Alves, funcionando como camarote e ponto de encontro no Carnaval de Salvador.

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Edifício Maiza
A história do Edifício Maiza está diretamente ligada à transformação urbana do Corredor da Vitória, uma das áreas mais tradicionais de Salvador. Considerado um dos primeiros prédios residenciais multifamiliares da região, ele foi construído no final da década de 1940, com projeto do arquiteto Luis Arantes.
Na época, o Corredor da Vitória passava por um processo importante, quando antigas mansões e casarões começaram a ser demolidos e surgiram os primeiros edifícios de apartamentos. Neste contexto, o Maiza surgiu com um padrão diferente, apostando em poucos andares (térreo + cerca de 6 pavimentos), número reduzido de apartamentos e perfil ainda intermediário, voltado inicialmente à classe média.

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O especial Salvador 477 anos do Alô Alô Bahia é oferecido pela Moura Dubeux e Guanabara e conta com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador.