Com dramaturgia e encenação de Marcio Meirelles, o Teatro Vila Velha estreia no dia 7 de março o espetáculo “ODISSEIA + Paisagem com Argonautas”, em temporada no Espaço Cultural da Barroquinha. A montagem apresenta os sete primeiros cantos do poema épico “Odisseia”, de Homero, em diálogo com o texto “Paisagem com Argonautas” (1982), do dramaturgo alemão Heiner Muller.
A estreia integra o ciclo de formatura da 11ª turma da universidade LIVRE, centro de formação do Vila que há mais de 60 anos atua de forma pioneira no país. Desde janeiro do ano passado, a instituição desenvolve, em parceria com a Fundacao Banco do Brasil, o projeto “TEMPO: Disseminação Cultural e Inclusão Social no Teatro Vila Velha”, iniciativa inédita de capacitação profissional, artística e cidadã voltada a pessoas de diferentes idades, comunidades, gêneros e ocupações.
Com carga horária de mil horas ao longo de um ano, 30 bolsistas participaram de atividades e oficinas em diversas linguagens, de teatro e dança a percussão e Libras, além de práticas de mediação cultural, comunicação, audiovisual e técnicas de palco. A formação prática e artística culmina agora na montagem que revisita a obra universal de Homero e a escrita fragmentada e contemporânea de Müller.
O poema épico narra o retorno de Odisseu (ou Ulisses, na tradição romana), herói da Guerra de Troia, que leva dez anos para chegar à sua terra natal, Ítaca, após uma guerra que também durou uma década. Na encenação, o mito do heroísmo é deslocado para o campo das escolhas humanas. Atravessado pelos escombros do conflito, entende-se que a vitória não encerra o trauma e a viagem deixa de ser apenas geográfica e se torna ética, um percurso em que cada decisão molda destinos individuais e coletivos. A partir dessa perspectiva, a universidade LIVRE investiga questões políticas, econômicas e culturais que atravessam milênios e encontram paralelos no presente.
“Ao encarar o mito do nosso ponto de vista, do presente, ‘Odisseia’ torna o nosso momento num tempo histórico, marcado por crises políticas, guerras, colapsos institucionais e disputas de narrativa. Vivemos um momento em que cada escolha coletiva projeta um futuro possível”, reflete Meirelles, encenador e diretor artístico do Vila.
Em conexão intertextual e mitológica com Müller, Meirelles retoma o recurso do metateatro, já explorado em montagens anteriores como “Hamlet+HamletMachine”, ao aproximar William Shakespeare e Heiner Müller. A estética polifônica dialoga com o método do Teatro Coral, no qual o elenco constrói uma unidade cênica em coro. O encontro entre os sete primeiros cantos do clássico e a contemporaneidade de “Paisagem com Argonautas” amplia a narrativa mítica e a conecta a um mundo atravessado por crises políticas, guerras e colapsos climáticos.
Despojada de deuses, monstros e façanhas heroicas, a montagem concentra-se no que há de mais humano na jornada: o peso da escolha entre o “sim” e o “não”. Com Libras integrada à dramaturgia como parte constitutiva da cena, “ODISSEIA” afirma a acessibilidade como gesto político e poético.
A temporada segue até 22 de março, com sessões às sextas, às 19h; aos sábados, às 16h e 19h; e aos domingos, às 16h. Os ingressos estão disponíveis pelo Sympla e na bilheteria do evento. A ocupação do Espaço Cultural da Barroquinha integra o movimento “Vila Ocupa a Barroquinha”, realizado com apoio da Fundação Gregório de Mattos. A programação completa pode ser acompanhada no Instagram @teatrovilavelha e no site oficial do teatro.