Três jovens de Salvador uniram tecnologia e impacto social para criar uma ferramenta de Inteligência Artificial (IA) voltada ao apoio financeiro de mães solo e acabaram reconhecidos internacionalmente. Péricles Oliveira, Luã Mota e Adriele Ornellas são os criadores da “Yá”, solução que ficou entre as três vencedoras da AI4Good 2026 Brazil Conference at Harvard & MIT, após avaliação de 188 projetos de todo o país.
A ideia surgiu a partir da realidade social baiana. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que mulheres chefiam 51% dos lares na Bahia, cenário ainda mais marcante em Salvador, onde há alta proporção de famílias sem cônjuge. “Salvador é a capital com maior proporção de lares sem cônjuge do Brasil. Eu cresci vendo isso. A escassez financeira não afeta só uma geração. Afeta as que vêm depois”, diz Péricles.
O grupo também considerou o recorte racial: no Brasil, mulheres negras lideram seis em cada dez lares chefiados por mulheres. “Foi basicamente olhar para a realidade da gente. Salvador é a capital com maior proporção de lares chefiados por mãe sem cônjuge e aí não é mãe solteira, é bom a gente reforçar isso, são mães solo, podem ser divorciadas, viúvas, separadas”, completa o engenheiro eletricista, em entrevista ao g1.
A apresentação do projeto aconteceu no palco principal da conferência, em Boston, nos Estados Unidos, no fim de março. O programa, com duração de seis semanas, seleciona iniciativas de IA com potencial de resolver problemas reais, e a “Yá” foi a única representante do Nordeste entre as finalistas.
Criados em bairros periféricos de Salvador, como Vila Matos, Paripe e Bairro da Paz, os três destacam o peso simbólico da conquista. “Além de ser uma experiência inédita, foi um processo de autoconhecimento, reafirmação. Foi um empoderamento, de você se sentir capaz, sentir que você pode entrar nesse espaço”, comentou Luã à repórter Iamany Santos.
Para desenvolver a ferramenta, o trio entrevistou cerca de 14 mães solo, mapeando dificuldades e necessidades. A principal constatação foi a baixa consciência financeira e a dificuldade de criar reservas. “Foi muito grandioso fazer uma solução para esse problema e gerar esse impacto nessas mães. Quando a tecnologia encontra um propósito, ela gera um impacto muito grande”, afirmou Adriele.
A partir desse diagnóstico, a “Yá” foi desenhada como um diário de gastos simples e acessível, operado via WhatsApp. A proposta é reduzir barreiras tecnológicas e permitir que usuárias registrem despesas por texto ou áudio. “A ideia da ferramenta é não gerar nenhum tipo de fricção ou burocracia na forma de utilizar. A gente entende que o nosso público pode ter algumas limitações, como espaço no celular;. A gente partiu para um canal que hoje já é amplamente utilizado no Brasil, que é o WhatsApp”, explica Luã.
Durante os testes, outro desafio apareceu, que foi a relação emocional com o dinheiro. Muitas participantes relataram ansiedade ao lidar com números. Segundo o grupo, o uso da IA ajudou a tornar essa interação mais leve e objetiva. “Não é só a economia de dinheiro. É, às vezes, uma relação ansiosa com os números, de olhar e sentir ansiedade ou não querer nem olhar para os números porque veem eles muito baixos”, contou Péricles. “Em um dos relatos, a mãe tinha ansiedade ao ver os números e a IA mostrou sem julgamento, demonstrou para ela que o problema era menor do que ela imaginava”.
Ainda em fase inicial, a “Yá” deve começar a ser testada com usuárias no segundo semestre, a partir de uma lista de espera já em formação. A ferramenta funcionará por meio de um número de telefone, permitindo interação direta com o sistema para organização financeira no dia a dia.