O acidente de helicóptero que matou o cantor Rick, da dupla sertaneja com Renner, fez milhares de fãs relembrarem outros acidentes que vitimaram outras personalidades, como o jornalista Ricardo Boechat, o ex-jogador Fernandão e o astro do basquete Kobe Bryant.
Acidentes envolvendo helicópteros costumam impressionar pelos destroços, que deixam a entender o forte impacto da aeronave no solo. Mas a ideia de que é “quase impossível” sobreviver a qualquer queda de helicóptero não é correta. O resultado depende de fatores como altitude, velocidade, tipo de falha, possibilidade de o piloto manter o controle, terreno atingido, intensidade do impacto e características de segurança da aeronave.
A própria Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) possui normas e recomendações destinadas justamente a aumentar a sobrevivência dos ocupantes em acidentes, incluindo sistemas de combustível resistentes a impactos, assentos capazes de absorver energia e estruturas projetadas para proteger quem está na cabine.
Um dos principais fatores para entender a gravidade de uma queda está na energia envolvida no impacto. Quando a aeronave atinge o solo em alta velocidade vertical ou sem condições de desacelerar adequadamente, as forças de desaceleração transmitidas ao corpo podem provocar lesões fatais. Mas perder o motor não significa necessariamente despencar do céu.
De certa forma, sim. Helicópteros possuem uma manobra de emergência chamada autorrotação, que permite uma descida controlada mesmo quando o motor deixa de fornecer potência ao rotor principal. Segundo o manual da FAA, durante a autorrotação o fluxo de ar que passa de baixo para cima pelo rotor mantém as pás girando. O piloto pode usar a energia armazenada no rotor para reduzir a velocidade de descida antes de tocar o solo. Por isso, uma falha de motor isoladamente não determina que haverá uma queda fatal.
O problema é que a execução da manobra depende das condições em que a emergência acontece. Altitude, velocidade, peso da aeronave, rotação do rotor e tempo disponível para reação influenciam diretamente o resultado.
Existe até uma combinação especialmente delicada: voar muito baixo e com pouca velocidade. Nessa situação, uma perda repentina de potência pode deixar altura e tempo insuficientes para completar uma autorrotação segura.
A FAA registra acidentes nos quais justamente essa combinação impediu uma recuperação bem-sucedida. Essa região do diagrama de altura e velocidade é popularmente conhecida na aviação como “dead man’s curve”, ou “curva do homem morto”.
Incêndio após o impacto é outro risco
Mesmo quando o impacto inicial seria potencialmente sobrevivível, existe outro perigo: o incêndio. O combustível pode vazar caso tanques, mangueiras ou conexões sejam rompidos durante a colisão. Se entrar em contato com uma fonte de ignição, pode ocorrer um incêndio logo após a queda.
A FAA cita investigações nas quais o fogo posterior ao impacto agravou acidentes que apresentavam condições de sobrevivência. Por esse motivo, sistemas de combustível resistentes a acidentes foram desenvolvidos para diminuir vazamentos e, consequentemente, o risco de incêndios.
Esses sistemas podem utilizar tanques mais resistentes a rasgos e impactos, conexões projetadas para se separar sem liberar grandes quantidades de combustível e mecanismos para manter o combustível distante de possíveis fontes de ignição.
Assento e estrutura também podem salvar vidas
Não é apenas o exterior do helicóptero que importa. O que acontece com a cabine durante a desaceleração também influencia diretamente as consequências para passageiros e tripulantes.
A FAA destaca que helicópteros equipados com assentos resistentes a acidentes, estruturas com maior capacidade de proteção e sistemas de combustível resistentes a impacto oferecem maior proteção aos ocupantes.
Assentos capazes de absorver parte da energia, cintos e sistemas de retenção e uma cabine que preserve espaço ao redor dos ocupantes podem fazer diferença quando o acidente ocorre dentro de determinados limites de impacto.
Então é quase impossível sobreviver?
Não. Não existe uma regra segundo a qual acidentes de helicóptero sejam quase sempre fatais. Há desde pousos de emergência e autorrotações com sobreviventes até colisões cuja energia é tão elevada que ultrapassa a capacidade de proteção da aeronave e do corpo humano.
Por isso, não é possível olhar apenas para o fato de uma aeronave ter “caído” e determinar as chances que os ocupantes tinham. É preciso conhecer a sequência do acidente: velocidade, altitude, atitude da aeronave, funcionamento do rotor, local do impacto, forças envolvidas, danos estruturais e eventual incêndio.
No caso de um acidente específico, somente a investigação técnica pode estabelecer o que aconteceu nos segundos anteriores à queda e quais fatores determinaram a gravidade do impacto.