Cinco shoppings de Salvador em um percurso de quinze quilômetros – tudo isso, antes das 6h da manhã. Depois, 12 quilômetros numa rota entre a antiga Rodoviária de Salvador, na região do Iguatemi, e o novo terminal, em Águas Claras, pela BR-324. Em outro dia, o desafio era: entre 4h50 e 6h da manhã, correr por Salvador e percorrer o máximo possível de faculdades dentro desse intervalo.
Se você achou algum desses desafios minimamente familiares, é porque talvez já tenha se deparado com algum vídeo do ultramaratonista e criador de conteúdo Victor Fish – o atleta amador que ficou famoso justamente por enfrentar muita ‘Laranjada’ enquanto percorre Salvador entre seus treinos de corrida.
Aos 38 anos, ele acumula no currículo duas provas de 100 quilômetros, oito maratonas (ou seja, mais 42 quilômetros em cada um) e dezenas de bairros soteropolitanos fora dos circuitos mais badalados da corrida cobertos ao longo dos treinos. Isso sem contar os treinos fora de Salvador. “Será que dá para ir de Abrantes, Camaçari, até o Salvador Shopping? Vamos nessa, não sei quantos quilômetros vai dar”, diz Victor, em um dos vídeos mais recentes da “Laranjada Produções”, publicado em agosto.
A resposta foi: sim, deu para ir. O saldo: 28 quilômetros, quase 400 mil visualizações no Instagram, 180 mil no TikTok e milhares de comentários torcendo junto, brincando, se surpreendendo e, eventualmente, até duvidando da sanidade. “Mano, faltam alguns parafusos em sua cabeça, só pode”, brincou um seguidor, em um dos comentários. “Quase paro o carro e pego sua carona”, publicou outro.
Administrador de empresas por formação e com uma longa atuação na área, em empresas ligadas à indústria do entretenimento, em Salvador, Victor já tinha vivência na madrugada devido ao trabalho. Hoje, porém, a madrugada é encarada de outra forma.
“Apesar de parecer nos vídeos que a gente é meio descuidado, no mundo todo, corredores desbravam as ruas por aí. Eu não sou diferente. Sou aquele corredor que fica enjoado se ficar só no calçadão, para cima e para baixo. A corrida perde o sentido para mim. E eu gosto de conhecer lugares, desbravar a rua mesmo, conhecer detalhes da cidade que a gente não vê com o carro”, diz ele, em entrevista ao CORREIO.
Victor encontrou a equipe do jornal nesta semana para contar um pouco de sua rotina, que também pode ser conferida em uma reportagem especial no YouTube do jornal. Nos próximos dias 26 e 27 deste mês, ele vai encarar mais um desafio (literalmente): é assim que é chamado o “combo” de provas para quem escolhe correr os dois dias da Maratona Salvador. No caso, serão 10 quilômetros no sábado e 42 quilômetros no domingo (ou seja, sua nona maratona).
Começo
Quem vê os vídeos hoje talvez não imagine que a corrida entrou de forma despretensiosa na vida de Victor — e principalmente como uma forma de cuidar da saúde mental. Hoje, ele é um desbravador da cidade e se orgulha de mostrar que a corrida pode ser um esporte acessível.
Mas o início de tudo foi na região do Jardim de Alah, em 2023. “A gente estava em um processo de cabeça meio estressado, meio depressivo. A rotina de trabalho estava pesada e, em 2023, não tinha nada aberto em Salvador antes das 6h da manhã. Hoje, você vê um bocado de coisa, mas, em 2023, nem academia abria”, lembra,
Um dia, ele passava de bicicleta pela Orla do Jardim de Alah quando viu uma tenda de assessoria de corrida aberta às 4h45. Victor buscava uma atividade física que pudesse completar até 6h da manhã, quando a esposa saía para trabalhar. “Falei: vai ser corrida de rua”, lembra. Antes, ele já tinha tentado correr por alguns meses, mas sem ir para a frente por muito tempo. Praticava outros esportes, como o surf. “Na pandemia, quando fechou tudo, fui demitido, perdi trabalho e tive que me reinventar. Falei: ‘cara, preciso ser uma máquina”.
Victor passou a acordar às 5h da manhã, com uma rotina de caminhada e trotes (a corrida confortável, intercalada com caminhada). Ele chegou a se inscrever em uma assessoria de corrida na Barra, em 2021, mas, em poucos meses, teve uma lesão conhecida como ‘joelho de corredor’, uma inflamação na parte lateral do joelho. Dali em diante, deixou a corrida de lado até aquele dia andando de bike.
Em 2023, mesmo, fez uma prova de cinco quilômetros em abril; 10 quilômetros em maio; em julho, uma meia maratona e, em setembro, uma maratona. “Foi loucura total. Deu certo comigo, mas não aconselho a ninguém”, admite.
A primeira ultramaratona veio porque estava em busca de uma prova de 50 ou 60 quilômetros. Tentou uma na Chapada Diamantina, mas acabou não conseguindo fazer. “Daí eu vi que tinha um negócio de desafio entre quatro faróis que eram 100 km. Só que eu falava que 100 quilômetros era coisa de maluco e pensei em fazer 60 quilômetros nela. Comecei a treinar para fazer 60 quilômetros, mas, no treinamento, senti que dava para fazer a de 100. E a gente encarou a de 100”, lembra, referindo-se à prova em 2024. Em 2025, correu 100 quilômetros novamente.
Laranjada
Foi já em meio aos treinos para a maratona que surgiu a ‘Laranjada’, o bordão pelo qual se tornou mais conhecido. Victor continuava tendo que terminar os treinos antes das 6h, horário em que a esposa sai para trabalhar. A partir desse período, é o momento de arrumar o filho de sete anos para a escola.
“Acordo ele, faço o café e tal. Então, se eu tinha 20 quilômetros para fazer enquanto me preparava para a maratona, isso quer dizer que eu tinha que sair para treinar às 4h da manhã, na madrugada. Uma vez, o porteiro no meu prédio falou: ‘rapaz, não saia agora, não. Você não está vendo que isso é laranjada, não, rapaz? Essa rua deserta, uma hora dessa’. Fui usando isso nos vídeos e acabou pegando. Quando fui ver, eu estava nas corridas e o pessoal estava me chamando de Laranjada. Pegou geral”, explica.
Os vídeos da madrugada costumam gerar maior curiosidade e até preocupação de alguns seguidores. “Mas é o horário que eu tenho para treinar. E eu aprendi a andar na madrugada, né? Tem vários trechos que ninguém está esperando o corredor. A rua está deserta, mas tem entrega do jornal na madrugada, tem algumas pessoas que infelizmente dormem na rua, tem um ou outro carro passando”, cita.
Mas quem vê os vídeos já prontos talvez não tenha tanta noção dos cuidados: andar na contramão dos carros, vestir roupas de cores chamativas, sinalizar e olhar sempre de frente para os automóveis. Além disso, o roteiro sempre é muito estudado. Na BR, um dos vídeos de mais repercussão até o momento, Victor sabia que não havia acostamento em alguns trechos.
O que viralizou foi justamente porque, nesses trechos, ele fez alguns desvios, ainda que as pessoas perguntassem por que não tinha seguido em linha reta. “Porque não tem calçada, não tem acostamento. Então, fui fazendo isso e muita gente comentou, por isso viralizou. ‘O cara, em vez de só seguir reto, entrou em Pirajá, entrou não sei onde’. E foi uma corrida muito tranquila”.
Para quem tem provas específicas como alvo, como é o caso dele, nem todo treino pode ser assim, já que o volume é grande. No caso de Victor, são quatro dias de corrida na semana, fora momentos de fortalecimento e mobilidade. Por isso, nem sempre dá para que todos esses treinos sejam ao longo de diferentes bairros de Salvador.
Ainda assim, ele garante que locais que as pessoas julgam serem desertos ou mais arriscados, contudo, não necessariamente são. No dia em que gravou a corrida na frente da antiga Rodoviária, indo ao Acesso Norte, foi um desses casos.
“A galera fica achando que ali é perigoso, mas tem gente ali, indo trabalhar, cinco horas da manhã. Tem gente que está indo para o hospital, para o hotel. A rotina de Salvador está rodando ali. Tem pessoas caminhando, tem gente que acorda de manhã, vai pegar seu ônibus, levar o filho na escola. Tem gente que está às 5h da manhã com o filhinho pequeno nas passarelas e ninguém está vendo. Eu estou vendo porque estou correndo, entende? Então, a cidade está acordada”.
Cidade
A lista de locais por onde o atleta já passou é longa: de Praia do Flamengo à Avenida Suburbana, de São Marcos ao Bonfim, de Armação à Barra, sem esquecer da Região Metropolitana. Ainda assim, há lugares a explorar, a exemplo de Cajazeiras, que é um dos roteiros mais pedidos.
Ele também promove Laranjadas ‘coletivas’. Hoje, tem uma comunidade com mais de 600 pessoas que querem correr junto e desbravar as ruas e, vez ou outra, Victor marca para correrem juntos. Na última, foram cerca de 200 pessoas que correram quase 20 quilômetros.
Apesar de sua marca já ser a Laranjada, contudo, um de seus principais feitos é justamente desmistificar que alguns locais de Salvador são áreas problemáticas ou arriscadas para a prática de esportes de rua. “A gente vai mostrando que a corrida de rua é muito mais do que a bolha de Salvador, que está na mídia, onde estão as assessorias”, avalia.
Com os cuidados que toma, ele garante que nunca se sentiu inseguro em nenhum dos bairros onde correu e nunca passou por uma situação realmente arriscada. Até os momentos em que os vídeos são gravados são em momentos específicos. Depois de registrar aquele take, o celular volta para o bolso e a corrida continua.
Em casa, a família já se acostumou. “Minha esposa sabe que pesquiso antes os roteiros. Teve só uma vez, de todas essas aí, que, numa madrugada, dois caras entraram na contramão numa moto. Eu entendi de longe, porque estava sozinho na rua. Mas avancei correndo e, graças a Deus, nunca aconteceu nada”.
Pelo trabalho com o entretenimento, Victor já conhecia muito de Salvador. Mesmo antes, ainda na adolescência, apesar de ter crescido no Imbuí, saía com os amigos por outros bairros. Nada se compara, contudo, à experiência com a corrida agora.
“Eu tento desmistificar isso, porque a gente tem muita gente que corre para mudar a vida, levantar autoestima, sair de uma depressão, de uma obesidade. Essas pessoas podem pensar: ‘não vou (correr) porque não moro perto da Orla, no meu bairro não dá’. A gente faz justamente para mostrar que é possível. Faço essa brincadeira para mostrar que a corrida de rua está presente em todos os locais, todos os bairros, independentemente de qualquer coisa. Foi por esse incentivo que começou esse trabalho na rede social”.
Influenciador
Hoje, Victor tem quase 60 mil seguidores no Instagram, sua principal plataforma, e mais de 16 mil no TikTok. A vida como influenciador de corrida é dividida também com a rotina de trabalho na área de administração em uma empresa de entretenimento. Além disso, ele tenta organizar tanto o cronograma dos treinos ‘laranjada’, que são para se divertir, quanto os de performance, como os dias em que precisa fazer força.
A rotina como criador de conteúdo teve início porque, sem dinheiro para fazer a Maratona do Rio de Janeiro em 2024, ele percebeu que vários influenciadores de corrida estavam ganhando um tênis. “Pensei: ‘por que eu não posso ganhar também? O que essa galera faz que eu não faço?’. Começou tudo ruim, tudo feio, mas o início é assim mesmo. Até que, uma hora, encaixou um conteúdo e as pessoas foram gostando”.
Victor também costuma dar visibilidade a outros corredores, inclusive atletas que treinam nos circuitos não tão tradicionais. “A corrida de rua tem muito isso, a gente cria vários vínculos de amizade”.