Projeto criado na Bahia usa óculos inteligentes e IA para treinar funcionários de fábricas de chocolate

Projeto criado na Bahia usa óculos inteligentes e IA para treinar funcionários de fábricas de chocolate

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

José Mion/Alô Alô Bahia

MTILAB/Uesc

Publicado em 08/09/2026 às 08:59

Um projeto desenvolvido na Bahia promete transformar a forma como trabalhadores são treinados para atuar em fábricas de chocolate. Criada por pesquisadores da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), em Ilhéus, a tecnologia combina óculos inteligentes, realidade virtual e inteligência artificial para reproduzir o passo a passo da produção, desde o processamento das amêndoas do cacau até as diferentes etapas da fabricação do chocolate.

Com os óculos, o trabalhador pode percorrer virtualmente uma fábrica, manipular equipamentos e aprender os procedimentos à distância, sem ser exposto aos riscos de uma operação real. A ferramenta também conta com o “Guia Cacau”, uma espécie de instrutor virtual baseado em inteligência artificial que conversa com o usuário durante o treinamento.

“Quando a pessoa fala algo, o sistema primeiro transforma a fala em texto, depois interpreta o que foi dito e responde por voz. Esses três passos acontecem em poucos segundos, dando a impressão de um diálogo natural”, diz Amanda Oliveira, doutoranda em Modelagem Computacional pela UESC ao Valor Econômico.

Oliveira e sua equipe apresentaram a tecnologia na Expocacau 2026, feira voltada ao setor realizada em Ilhéus no fim de agosto. Segundo a pesquisadora, um dos diferenciais do “Guia Cacau” em relação a um chatbot convencional é a capacidade de acompanhar o que acontece dentro da realidade virtual.

O sistema identifica, por exemplo, se o usuário já passou por determinada área da fábrica, se manipulou o equipamento correto e em qual etapa do treinamento está. “Isso evita que ele dê instruções fora de contexto ou confirme algo que não aconteceu na simulação”, explica.

Simulação permite treinar funcionários de fábricas de chocolate | Foto: MTILAB/Uesc

A tecnologia também pode reduzir a necessidade de que funcionários experientes interrompam suas atividades para acompanhar novos trabalhadores. “O gestor não precisa parar seu melhor operador para treinar pessoas. Isso gasta tempo e reduz a chance de prejuízos com danos em equipamentos”, afirma.

Outro benefício é a possibilidade de avaliar a aptidão do trabalhador antes de colocá-lo em uma situação real de operação. Os riscos e procedimentos são simulados virtualmente, permitindo que o funcionário tenha contato com as atividades sem estar sujeito às consequências de eventuais erros.

Além da fábrica virtual de chocolate, a UESC desenvolveu uma experiência de realidade virtual voltada para a cabruca, sistema tradicional de cultivo de cacau em que os cacaueiros crescem à sombra de árvores da Mata Atlântica.

O projeto recebeu apoio financeiro do Edital Incite, da Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia (Fapesb), para a aquisição dos equipamentos e o desenvolvimento da tecnologia. Atualmente, a pesquisa também conta com uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

A equipe agora busca indústrias de chocolate interessadas em testar e adotar a solução. Inicialmente, o modelo foi desenvolvido com base em fábricas artesanais de chocolate, mas os pesquisadores já trabalham na criação de ambientes virtuais que reproduzem uma indústria de médio porte, utilizando como referência os manuais dos maquinários empregados nesse tipo de empresa.

A iniciativa também está relacionada a um dos principais desafios da cadeia produtiva do cacau, que é a carência de tecnologia. Diferentemente de setores como o de grãos, que contam com grande número de produtores tecnificados, a produção de cacau no Brasil é concentrada principalmente entre pequenos produtores. Segundo o IBGE, existem cerca de 93 mil cacauicultores no país, em sua maioria agricultores familiares.

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