A imagem de Anitta na Bahia é a do suor, do trio elétrico no circuito Barra-Ondina e de um bpm acelerado. Neste sábado (29), porém, a dinâmica no Centro de Convenções será diferente. Com ingressos totalmente esgotados, a cantora carioca desembarca em Salvador com a “EQUILIBRIVM Tour”, um espetáculo que substitui o frenesi do funk pelos tambores e a necessidade de agradar a massa pela urgência de expressar a própria essência.
A capital baiana surge não apenas como uma parada estratégica na curta turnê nacional, mas como o epicentro simbólico desta nova fase. É na Bahia que o repertório de 42 músicas, dividido em quatro atos, encontra sua ressonância mais profunda.
Ao alinhar faixas dos recentes álbuns “EQUILIBRIVM” e “EQUILIBRIVM II” com hinos atemporais como o ijexá “É d’Oxum”, de Gerônimo Santana e Vevé Calazans, e o samba “Andar com fé”, de Gilberto Gil, Anitta reverencia o chão que pisa.
“Esse é um projeto em que eu olho muito pra raiz da nossa cultura, sabe? Principalmente pras nossas raízes negras e indígenas”, explicou a cantora em entrevista exclusiva ao Alô Alô Bahia.
A escolha de entoar obras de tamanha carga espiritual e cultural não é casual. “Salvador tem uma importância enorme na resistência e na preservação de tudo isso. Então, com um projeto que fala tanto sobre identidade, sobre essas raízes, não tinha como eu não vir pra Bahia. E aí cantar músicas como ‘É d’Oxum’ e ‘Bemba’ [parceria com a baiana Luedji Luna] aqui fica ainda mais especial pra mim”, afirmou.
A direção criativa de Nídia Aranha materializa essa reverência. Nos palcos por onde a turnê já passou, o público se deparou com uma estética inspirada na natureza e na ancestralidade: plataformas em diferentes alturas formando escadarias, bailarinos com grandes folhas e tecidos dourados, e percussionistas com atabaques presos ao corpo.
Se o formato afasta a euforia dos clássicos “Ensaios da Anitta”, ele não anula a intensidade da experiência. “A verdade é que o show da ‘EQUILIBRIVM Tour’ gera, sim, uma catarse. Mas uma catarse diferente da que a gente vive todos os anos no Carnaval”, ponderou a artista.
“Com esse espetáculo eu tô propondo uma comunhão com o meu público, uma experiência de catarse coletiva em torno da música, de signos da cultura do nosso país e por meio da fé. Tem sido lindo e Salvador vem pra coroar esse momento”, disse.
No centro dessa catarse está o Candomblé, religião de matriz africana que hoje norteia sua obra. Em um Brasil atravessado pela intolerância religiosa, da qual ela mesma é alvo frequente, colocar as guias no pescoço e bater tambor para uma legião de fãs assume uma dimensão política indiscutível.
“Acho que toda manifestação pela diversidade religiosa, num país que ainda é preconceituoso com as fés de matriz africana, é um ato de liberdade”, apontou a Girl from Rio.
Essa busca por ancoragem respinga na estrutura do evento. Anitta, o maior produto de uma indústria fonográfica baseada na produtividade incansável, agora convida seus fãs a pararem de correr. Antes do show, o público tem acesso à Vila EQUILIBRIVM, um espaço prévio com curadoria do movimento Virada Zen.
O local oferece meditação, breathwork (trabalho respiratório), rodas de cura e massagens gratuitas no Spa Natura Ekos. É uma tentativa de curar no outro a exaustão que o próprio mercado impõe. “A ideia da Vila veio do meu desejo de proporcionar para os meus fãs amostras de algumas ferramentas que me ajudaram, e ajudam, a encontrar o equilíbrio”, justificou.
Musicalmente, há acenos ao que a cantora chama de “antigo testamento”, com a provável inclusão de faixas como “Zen” e “Ritmo Perfeito”, mas o recado é claro: este é um show para quem se dispôs a ouvir os discos inteiros. Trata-se do raro momento em que uma artista pop decide parar de seguir moldes para, em vez disso, ditar o que será servido.
O público, segundo ela, estava maduro para essa ruptura. “Com ‘EQUILIBRIVM’, eu sabia que meus fãs estavam prontos para entender a jornada que eu vivi nos últimos anos. E eu mesma senti que tudo isso poderia inspirar outras pessoas”, refletiu ao Alô Alô Bahia.
“Foi muito sobre compartilhar uma verdade minha na esperança de que tocasse as pessoas”, finalizou.


