Para alguns corredores, cruzar a linha de chegada significa muito mais do que completar uma prova. É o resultado de uma trajetória marcada por desafios, recomeços e superação. Na Maratona Salvador, que será realizada nos dias 26 e 27 de setembro, dois atletas PCD levam para as ruas da capital baiana histórias que mostram como o esporte pode transformar vidas.
A competição acontece no Centro de Convenções Salvador, na orla da Boca do Rio, e reunirá milhares de corredores em provas de 5 km, 10 km, 21 km e 42 km, além dos desafios combinados de 5 km + 21 km e 10 km + 42 km.
Entre os participantes está Angelina Nascimento, de 60 anos, guardadora de carros da Zona Azul e atleta PCD que participou de todas as edições da Maratona Salvador, desde a época em que a prova era realizada na região da Barra. Mais uma vez, ela terá pela frente o desafio dos 42 km.
A relação de Angelina com a corrida começou depois de uma mudança radical em sua vida. As pernas ficaram paralisadas após ela desenvolver um distúrbio neurológico, a polineuropatia, depois de um contato com água de esgoto. O período seguinte foi marcado por internações e tratamento, mas também pelo início de uma nova trajetória por meio do esporte.
“Eu morei um ano em hospital e, logo em seguida, comecei o tratamento. Eu caí, mas me levantei mais forte e enfrentando os obstáculos. Cada dia da minha vida, eu aprendo e tenho evolução maior”, conta.
São cerca de 30 anos de relação com o esporte, sendo 15 anos como atleta de rua e outros 15 dedicados às competições como atleta PCD. Para Angelina, a corrida se tornou uma ferramenta para enfrentar não apenas os desafios físicos, mas também os emocionais.
“A corrida foi a coisa mais importante na minha vida. O esporte foi tudo, me ajuda a trabalhar a depressão, tenho meus altos e baixos e vou para cima, buscando meus objetivos”, afirma.
Baby Maratonista ganhou viagem para São Silvestre após sorteio
Outro personagem da Maratona Salvador é o baiano José Bonifácio Soares Filho, o Baby Maratonista, de 55 anos. Morador de Plataforma, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, ele tem baixa visão e acumula 27 anos de participação em corridas de rua.
A história do atleta com as competições começou quase por acaso. Em 1999, ele decidiu participar de uma corrida por curiosidade. No mesmo ano, disputou uma prova oficial da Federação Baiana de Atletismo, a Corrida Eliminatória da São Silvestre.
O resultado daquela participação acabou mudando sua trajetória. Baby Maratonista ganhou, em um sorteio realizado durante a competição, uma passagem de ida e volta para São Paulo para disputar a tradicional Corrida Internacional de São Silvestre.
Ele encarou os 15 km da prova em meio a cerca de 13 mil participantes e ainda conseguiu terminar entre os mil primeiros colocados.
“Sou muito grato a Deus por existir esse esporte, principalmente para nós, pessoas com deficiência. Comecei em 1999 como curiosidade. Corri e, por ironia do destino, ganhei em um sorteio uma passagem de ida e volta para São Paulo para participar da São Silvestre”, relembra.
A experiência se transformou em uma carreira de décadas nas corridas de rua. Na edição anterior da Maratona Salvador, Baby completou os 42 km em 3h28min e terminou em segundo lugar na categoria PCD.
Neste ano, ele volta a encarar a maratona em busca de mais um resultado expressivo.
Maratona Salvador já tem 66 atletas PCD inscritos
As histórias de Angelina e Baby Maratonista fazem parte de um movimento maior de inclusão no esporte. Segundo a organização da Maratona Salvador, 66 atletas PCD já estão inscritos para a edição de 2026. As inscrições permanecem abertas até 20 de setembro, ou enquanto houver vagas disponíveis.
O coordenador da prova e diretor da MP3 Marketing, Douglas Cerqueira, acredita que o número deve superar o registrado em 2025.
“Provavelmente vamos superar o número de PCD de 2025. Percebo que esse crescimento tem relação com dois pontos: primeiro, que todo atleta PCD, mediante a apresentação da documentação, tem 50% de desconto, e isso é um estímulo. O segundo ponto é a vinda de profissionais do Comitê Paralímpico Brasileiro, que fazem uma classificação dos PCD de forma justa e isonômica na sua categoria”, explica Douglas.
De acordo com ele, a classificação também pode contribuir para que os atletas conquistem índices para outras competições.
“A partir dessa classificação e da própria competição, os corredores adquirem índices para competir no Brasil e até no mundo”, acrescenta.
Treinamento de atletas PCD exige preparação individualizada
Por trás de cada história de superação existe também uma preparação específica. O treinador de Angelina e José Bonifácio, Felipe Albuquerque, conhecido como Chokito, explica que o treinamento para uma maratona segue os princípios do endurance, mas precisa ser ainda mais individualizado quando se trata de atletas PCD.
“O ponto central não é simplesmente adaptar o treino de uma pessoa com deficiência, mas entender como aquele atleta produz movimento, quais são suas limitações funcionais, quais compensações aparecem com a fadiga e quais são as exigências específicas da sua categoria”, explica.
Segundo o treinador, a preparação é estruturada em cinco frentes: avaliação funcional e clínica, técnica específica, força, desenvolvimento aeróbio e especificidade da maratona.
Como funciona a classificação dos atletas PCD
Para competir dentro das regras do esporte paralímpico, os atletas passam por uma avaliação realizada por uma banca de classificadores do Comitê Paralímpico Brasileiro. O processo considera as características funcionais de cada participante e determina a categoria em que ele poderá competir.
Entre as classificações previstas estão:
- Cadeirante (CAD): atletas que utilizam rodas esportivas;
- Deficiência Visual (DV): categorias T11, T12 e T13;
- Amputados de membros inferiores (AMP): categorias T42, T43 e T44;
- Amputados de membros superiores (DMS): categorias T45 e T46;
- Deficiência Intelectual (DI): categoria T20;
- PCD Geral: demais categorias de paratletas.