Um novo estudo publicado na revista científica Psychological Reports revela que o consumo excessivo de conteúdo digital de curta duração (o fenômeno popularmente chamado de “brain rot”, ou “apodrecimento cerebral”) não leva diretamente à depressão, mas dispara uma cadeia progressiva de desgastes psicológicos que culmina nesse quadro.
Conduzida por pesquisadores da Universidade Karabük, na Turquia, a pesquisa ouviu 439 jovens adultos sobre seus hábitos digitais. Mais da metade dos participantes relatou passar cinco horas ou mais por dia em redes sociais, e cerca de um quarto do grupo ultrapassava sete horas diárias de uso.
Segundo os pesquisadores, o esgotamento mental causado pela rolagem constante de vídeos curtos (algo que obriga o cérebro a alternar rapidamente entre estímulos sem tempo para processar as informações) não provoca depressão de forma isolada. Em vez disso, esse desgaste cognitive alimenta o esgotamento (burnout), que por sua vez eleva os níveis de estresse e ansiedade. É a combinação desses dois fatores que, ao final, precipita sintomas depressivos — um efeito em cascata que os cientistas descrevem como uma “espiral de perdas”.
O estudo também identificou diferenças entre os gêneros: mulheres relataram níveis mais altos de fadiga cognitiva, esgotamento, estresse e ansiedade relacionados ao uso digital do que os homens. Ainda assim, os níveis gerais de depressão entre os dois grupos foram semelhantes, o que reforça que a depressão é um quadro multifatorial, influenciado por diversos aspectos da vida além dos hábitos digitais.
Outro achado relevante diz respeito à regulação emocional: participantes com maior dificuldade em identificar e administrar as próprias emoções apresentaram níveis mais altos de esgotamento, estresse e ansiedade. Para os pesquisadores, isso sugere que simplesmente recomendar que jovens “larguem o celular” tende a ser pouco eficaz, mas terapias voltadas à recuperação de recursos emocionais e ao manejo do esgotamento poderiam ser caminhos mais promissores para conter esse avanço.
Os autores ressaltam limitações do estudo, como o fato de os dados terem sido coletados em um único momento, o que impede confirmar definitivamente a sequência de causa e efeito, e alertam contra o exagero em torno do tema: embora o consumo digital excessivo tenha consequências reais para a saúde mental, é preciso evitar tratar hábitos geracionais como comportamentos inerentemente patológicos, direcionando o foco para os mecanismos de design viciante das próprias plataformas.