Condomínio para idosos tem quase 3 mil interessados em Salvador e procura é dominada por mulheres

Condomínio para idosos tem quase 3 mil interessados em Salvador e procura é dominada por mulheres

Redação Alô Alô Bahia

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com informações do CORREIO

Shutterstock

Publicado em 09/08/2026 às 17:55

Aos 74 anos, a aposentada Dulce Soares já sabe como quer viver a próxima etapa da vida. Não procura uma casa maior nem um condomínio com piscina de borda infinita. Seu desejo é morar em um lugar pensado para pessoas da sua idade, onde possa manter a independência, fazer amizades e encontrar vizinhos com experiências semelhantes.

“A gente chega numa determinada idade que quer o nosso cantinho, da paz, da tranquilidade, com tudo ali pertinho. Eu pretendo morar sozinha. É isso que eu quero”, conta.

Dulce faz parte de um movimento que começa a chamar a atenção do mercado imobiliário em Salvador. O primeiro condomínio sênior anunciado para a capital baiana, previsto para ser construído na região da Garibaldi, já reúne quase 3 mil interessados antes mesmo do lançamento oficial.

A procura, que cresce diariamente, revelou uma demanda por um modelo de moradia diferente das tradicionais instituições de longa permanência. São pessoas acima dos 60 anos que querem continuar vivendo de maneira independente, mas em imóveis e espaços comuns planejados para as necessidades do envelhecimento.

Um dado, porém, surpreendeu quem acompanha a procura: a esmagadora maioria dos interessados é formada por mulheres, principalmente viúvas, divorciadas e solteiras.

“Eu quero saber, alguém precisa fazer esta pesquisa. Onde estão os idosos que não nos procuram? A esmagadora maioria é mulher. Não consigo explicar o motivo”, afirma a corretora Sheila Rangel, especializada nesse segmento.

Morar entre pessoas da mesma geração

A aposentada Lúcia Moura, de 70 anos, é uma das exceções: pretende fazer a mudança acompanhada do marido, também de 70. Segundo ela, a escolha está menos relacionada à necessidade de cuidados e mais ao desejo de viver em um ambiente adequado à nova fase da vida.

“Quando somos jovens, convivemos naturalmente com pessoas de todas as idades por causa do trabalho, dos filhos e da vida social. Depois que nos aposentamos e os filhos seguem seus caminhos, acho importante voltar a conviver com pessoas da mesma faixa etária. São pessoas que viveram os mesmos acontecimentos, têm as mesmas lembranças, entendem as mesmas referências. É um sentimento de pertencimento”, explica.

Lúcia também chama a atenção para uma característica do mercado imobiliário tradicional: grande parte dos novos empreendimentos ainda é projetada para famílias mais jovens.

“Você procura um apartamento novo e encontra brinquedoteca, espaço gourmet, lazer para crianças. Tudo pensado para casais jovens. O idoso acaba comprando um imóvel que não conversa com a realidade dele. Além disso, muitos apartamentos não têm portas largas, banheiros adaptados ou pisos seguros. Isso gera insegurança.”

Independência em vez de isolamento

Diferentemente de casas de repouso e instituições de longa permanência, os condomínios sêniores são formados por apartamentos independentes, com estruturas e serviços pensados para o envelhecimento. Os moradores mantêm suas próprias rotinas, podem receber visitas e morar sozinhos ou acompanhados de cônjuges e familiares.

Áreas adaptadas, atividades físicas, serviços de saúde e espaços de convivência estão entre os diferenciais previstos nesse tipo de empreendimento.

Segundo Sheila, uma das principais descobertas durante seu trabalho foi perceber que a decisão de procurar uma moradia adaptada geralmente parte dos próprios idosos, e não dos filhos.

“Na maioria das vezes é o próprio idoso que entra em contato, pesquisa, faz as contas e se organiza para comprar. Muitos pretendem vender a casa onde moram hoje porque ela ficou grande demais ou deixou de atender às necessidades atuais”, relata.

A corretora começou a atuar no mercado imobiliário com a intenção de trabalhar principalmente com imóveis acessíveis para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. Ao publicar conteúdos sobre acessibilidade nas redes sociais, porém, percebeu uma procura crescente de pessoas com mais de 60 anos.

“Meu objetivo inicial era construir uma plataforma só com imóveis acessíveis para cadeirantes. Mas quem começou a me procurar em grande número foi o público acima dos 60 anos. Hoje minha especialidade acabou se tornando justamente os condomínios sêniores”, conta.

Mercado começa a se adaptar

A procura não está restrita a uma faixa de renda. Segundo Sheila, há interessados de diferentes classes sociais, inclusive no mercado de alto padrão. E o movimento já começa a provocar mudanças em outros projetos imobiliários.

Sem revelar os empreendimentos, ela afirma que condomínios que não alcançaram o desempenho comercial esperado estão sendo remodelados para atender ao público idoso. Novos projetos voltados ao segmento também devem surgir ainda este ano.

“O mercado imobiliário está se reinventando. Hoje, não basta construir imóveis; é preciso compreender quem são os novos consumidores”, afirma Davi Moreno, da PC Imóveis.

A tendência acompanha o envelhecimento da população brasileira. Com o aumento da parcela de pessoas acima dos 60 anos, o mercado começa a enxergar esse público não apenas sob a perspectiva dos cuidados de saúde, mas também como consumidores que desejam preservar autonomia, segurança e vida social.

Em Salvador, o modelo previsto é flexível: embora a estrutura e os serviços sejam direcionados às pessoas acima dos 60 anos, os proprietários poderão morar acompanhados de filhos, cônjuges ou cuidadores. Em outros estados, como Santa Catarina, já existem empreendimentos com regras que restringem a residência nas unidades ao público idoso.

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