Em cartaz nos cinemas brasileiros, Zico, o Samurai de Quintino chega como um documentário feito para dialogar tanto com torcedores do Flamengo quanto com espectadores interessados em histórias de formação, memória e identidade nacional. Dirigido por João Wainer, o filme revisita a trajetória de Arthur Antunes Coimbra, o Zico, a partir de arquivos pessoais, registros raros e depoimentos que ajudam a construir um retrato mais humano do eterno Galinho de Quintino.
Com estreia nacional em 30 de abril de 2026, o longa parte de um personagem que já ocupa lugar mítico no futebol brasileiro, mas tenta fugir da simples celebração. A proposta é olhar para Zico não apenas como camisa 10, ídolo rubro-negro e referência no Japão, mas como alguém moldado por família, disciplina, bairro, afeto e escolhas que atravessaram diferentes fases da carreira.
Um ídolo visto por dentro
O maior acerto de Zico, o Samurai de Quintino está em entender que a força do personagem não depende apenas de gols, títulos e lances históricos. Esses elementos fazem parte da narrativa, claro, mas o documentário parece mais interessado em investigar o que sustenta a imagem pública de Zico: sua relação com as origens, a ética de trabalho, o vínculo com o Flamengo e a maneira como se tornou uma figura respeitada também fora do Brasil.
Ao recorrer a imagens de arquivo e materiais pessoais, o filme ganha uma camada de intimidade que evita o tom burocrático de muitas cinebiografias esportivas. A trajetória do menino de Quintino ao status de ídolo internacional surge como uma história de talento, mas também de construção paciente, marcada por disciplina e por uma relação quase afetiva com o futebol.
O futebol como memória afetiva
Para o público brasileiro, Zico é mais do que um ex-jogador. Ele representa uma ideia de futebol associada à técnica, à lealdade clubística e a um período em que a figura do camisa 10 ainda carregava certo romantismo. O documentário trabalha bem essa memória afetiva, especialmente ao conectar o craque ao Flamengo, à Seleção Brasileira e à experiência no Japão, onde sua presença ajudou a consolidar uma ponte cultural importante para o esporte.
Esse recorte torna o filme especialmente interessante porque amplia o alcance da história. Mesmo quem não acompanha futebol de perto consegue encontrar ali um relato sobre pertencimento, reconhecimento e legado. O título, ao unir o “samurai” ao bairro de Quintino, resume bem essa tensão entre raiz popular e projeção internacional.
Direção aposta em emoção sem perder o controle
João Wainer conduz o documentário com uma abordagem acessível, privilegiando depoimentos, imagens de arquivo e uma montagem que busca fluidez. A estrutura não tenta reinventar o gênero, mas encontra força na proximidade com o personagem e na qualidade do material reunido. O resultado tende a agradar quem busca uma experiência emocional, sem que o filme dependa apenas da nostalgia.
A montagem ajuda a equilibrar as diferentes fases da vida de Zico, evitando que o documentário se transforme apenas em uma coleção de homenagens. Há reverência, como seria esperado em um filme sobre uma figura desse tamanho, mas o interesse pelo homem por trás do ídolo dá mais densidade ao conjunto.
Um filme para torcedores e para além deles
É natural que Zico, o Samurai de Quintino tenha apelo imediato entre flamenguistas. Ainda assim, o documentário não se limita à torcida. Ao tratar Zico como personagem cultural, e não apenas esportivo, o longa encontra um caminho mais amplo: fala sobre a formação de um ídolo brasileiro, sobre a permanência de certos símbolos e sobre como o futebol pode atravessar fronteiras sem perder suas raízes.
Esse é o ponto que torna a obra relevante no atual cenário dos documentários esportivos. Em vez de apostar apenas no espetáculo das imagens conhecidas, o filme busca organizar uma memória coletiva em torno de alguém cuja trajetória continua viva no imaginário de diferentes gerações.
Por que assistir
Zico, o Samurai de Quintino vale a sessão por oferecer um retrato caloroso, acessível e bem construído de um dos maiores nomes do futebol brasileiro. É um documentário de apelo emocional, mas também de valor histórico, capaz de emocionar torcedores e apresentar novas camadas de Zico a quem conhece apenas o mito.