62 anos do Golpe de 64: a prisão, o exílio e a resistência dos baianos Gil, Caetano, Glauber e Raul Seixas

62 anos do Golpe de 64: a prisão, o exílio e a resistência dos baianos Gil, Caetano, Glauber e Raul Seixas

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

Tiago Mascarenhas

Arquivo Pessoal/Divulgação

Publicado em 01/04/2026 às 12:02 / Leia em 4 minutos

Neste 1º de abril de 2026 marca os 62 anos do Golpe Militar de 1964. Para a Bahia, a data representa o início de um período de perseguição aos seus maiores ícones culturais. Com o endurecimento do regime ditatorial e a instauração do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 1968, a vanguarda artística baiana entrou na mira da censura e da repressão.

A música e o cinema, que redefiniam a identidade cultural do Brasil, foram enxergados como ameaças ao Estado. O resultado foi a prisão, o silenciamento e o banimento dos principais pensadores e artistas dessa geração.

Gilberto Gil

Em 27 de dezembro de 1968, Gilberto Gil foi arrancado de sua casa em São Paulo e levado para um quartel no Rio de Janeiro, sem qualquer acusação formal ou direito a defesa. Foram dois meses de cárcere fechado, seguidos de mais quatro meses de confinamento em Salvador, até ser forçado a deixar o país em 1969.

Antes de embarcar para o exílio em Londres, Gil compôs “Aquele Abraço”. A faixa, que driblou os censores, funcionou como um samba de despedida e virou um hino.

Na capital inglesa, o baiano transformou a dor da repressão em inovação: absorveu o reggae, o rock e a cena local, influências que mudaram definitivamente a sonoridade da sua obra nos anos seguintes.

Caetano Veloso

Preso no mesmo dia e sob as mesmas condições que Gil, Caetano Veloso teve a cabeça raspada no quartel e dividiu a angústia do isolamento. Longe da Bahia e afastado à força do seu público, Caetano canalizou o trauma do banimento para a composição.

No exílio londrino, o artista traduziu a solidão em faixas profundamente melancólicas. Compôs “London, London”, descrevendo a sensação de vagar por uma cidade cinza e estrangeira sem ter a quem dizer “olá”.

Esse período de dor e experimentação culminou no antológico álbum “Transa” (1972), gravado no exterior, onde a saudade do Brasil e o desejo de retorno ecoavam em cada arranjo.

Glauber Rocha

Se na música a resistência tinha o rosto da Tropicália, nas telas ela ganhava forma com Glauber Rocha. O cineasta baiano, líder do Cinema Novo, usava a câmera para escancarar as fraturas sociais, a fome e o fanatismo político do país.

Sua obra-prima, “Terra em Transe” (1967), foi proibida no Brasil logo após o lançamento, sob a acusação de subversão. Ele chegou a ser preso após participar de um protesto no Rio de Janeiro, mas logo acabou sendo liberado devido à repercussão da sua detenção.

Cena do filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha — Foto: Divulgação

Com o cerco se fechando rapidamente e a impossibilidade de produzir cinema crítico sob a vigilância dos militares, Glauber partiu para o exílio em 1971.

Durante a década de 70, o diretor vagou por países como Chile, Espanha, Itália e França. Levou a estética da “câmera na mão e uma ideia na cabeça” para o mundo, mas sofreu profundamente com o afastamento físico de sua terra natal.

Raul Seixas

Diferente dos tropicalistas, o embate de Raul Seixas com a ditadura ocorreu alguns anos depois e teve contornos anárquicos. Em 1974, ao lado do parceiro de composição Paulo Coelho, o roqueiro baiano lançou o manifesto da “Sociedade Alternativa”.

O regime militar, incapaz de compreender a filosofia da dupla, enxergou o movimento como uma ameaça subversiva e armada.

Raul e Paulo foram presos, interrogados pelo DOPS e despachados para o exílio nos Estados Unidos. A ironia do destino, no entanto, veio em formato de disco de ouro.

Enquanto Raul amargava o banimento em Nova York, o álbum “Gita” explodiu nas rádios brasileiras, tornando-se um fenômeno de vendas. O clamor popular foi tão avassalador que o governo militar recuou e permitiu o retorno do artista ao Brasil poucos meses depois de sua expulsão.

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