A pequena Cici não queria comer, só vivia com dor de cabeça e cansada. Aos 7 anos, foi desenganada pela medicina. “Devolva o dinheiro da consulta para a mãe dela que ela vai precisar para enterrar a filha”, disse um famoso médico e médium da cidade, em 1961. No candomblé, através da fé da sua mãe, achou a salvação e uma vocação que lhe acompanharia até os dias de hoje.
“Fui curada e estou aqui até hoje viva e com saúde desafiando a medicina e vendendo acarajé. Com 7 anos de idade, eu tinha que fazer as obrigações do meu orixá e tive que começar a vender”, relembra Jaciara Sacramento Souza, a baiana Cici de Amaralina, hoje com 72 anos. São 65 anos de dedicação, dendê e muitas histórias para contar. Registros da Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivo e Similares (Abam), apontam que Cici é uma das baianas mais longevas no ofício em Salvador. Inclusive, ela fez parte do grupo de profissionais que começou a colocar caruru e salada dentro do acarajé.
“Os tempos eram outros e, depois que eu fui curada, fiz santo [ritual de iniciação na religião]. A questão é que eu precisava depois de seis meses fazer uma obrigação [cerimônia] para meu orixá, mas eu só poderia fazer isso com o meu dinheiro. Como eu era muito pequena minha avó de criação [mãe de santo Maria de Katendê, do terreiro Katê Espero, na Federação] me botou para vender no ponto dela em Amaralina”, recorda Cici do tempo em que o acarajé era frito em panelas de barro.
A avó dividiu o tabuleiro: metade de acarajé e metade de abará. Fritou tudo e deixou a pequena Cici vendendo. Horas depois, vieram buscá-la. O tabuleiro estava vazio com tudo vendido. A partir desse dia Cici passou a vender o acarajé em dias alternados ou quando alguém da família precisava de ajuda. Fez uma pausa quando sua mãe, Antonieta Sacramento, teve outros 3 filhos e precisou de reforço em casa para tomar conta das crianças. Antonieta, que também era baiana de acarajé, assim como sua irmã e outras mulheres da família, queria outro destino para Cici.
“Minha mãe queria que eu estudasse porque ela não via futuro como baiana de acarajé. Hoje, você pode até se aposentar como baiana, mas naquela época o preconceito era muito grande. Eu estudava no colégio de freira [antigo Nossa Senhor da Luz] e eu não dizia que eu era filha de baiana de acarajé. Tinha medo e vergonha”, rememora Cici, que chegava a levar acarajé escondido para a escola para trocar por quebra-queixo que os colegas levavam.
Para tentar fugir do destino da família, Cici chegou a trabalhar como balconista, empacotadora , mas nada deu certo. O tabuleiro sempre chamava de volta. Foi em 1976, quando descobriu que estava grávida, que resolveu abraçar a profissão de forma definitiva. “Eu comecei a trabalhar fixa e não parei mais. Eu estava grávida e ninguém queria me dar emprego. Aí minha mãe e minha avó me deram um dia no ponto delas aqui em Amaralina. Conversei com meu marido e ele permitiu porque eu sempre gostei de ter o meu dinheiro. Eu cuidava da minha filha e trabalhava vendendo acarajé só dia de segunda-feira. Com um dia de trabalho eu tirava um salário de um mês. O povo comia muito acarajé “, recorda a baiana que lamenta que o movimento nos últimos anos caiu muito especialmente depois da entrada das grandes redes de fast food. “Depois que o McDonald’s chegou tudo ficou difícil”.
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