Mulheres elegantes e homens desprezíveis: como era a ‘Bridgerton soteropolitana’ com bailes, casamentos e nobreza em 1800

Mulheres elegantes e homens desprezíveis: como era a ‘Bridgerton soteropolitana’ com bailes, casamentos e nobreza em 1800

Redação Alô Alô Bahia

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Gabriel Moura

Reprodução

Publicado em 26/03/2026 às 12:00 / Leia em 9 minutos

Caro e gentil leitor, ao debruçar-se sobre as cativantes páginas de Bridgerton, é deveras improvável não transportar-se mentalmente para a Era Georgiana, fantasiando-se em bailes, romances e carruagens na Grã-Bretanha do início do século XIX. Decerto, transmutar tais devaneios para o mundo tangível não se revela tarefa das mais triviais. Uma máquina do tempo seria necessária para retroceder 200 anos, obviamente, mas os soteropolitanos gozam do privilégio de não necessitar de passaporte. Afinal, em 1820, Salvador vivia a própria extraordinária versão tropical da renomada internacionalmente adaptação da Netflix.

Embriagada pelo doce licor da Independência após 1823, a alta sociedade baiana saía às ruas — ou melhor, recolhia-se nos bailes e salões — celebrando altivamente a recém-conquistada prerrogativa de intitular-se nobreza. Explica-se: antes do grito do Ipiranga, a elite colonial era dotada de terras, riquezas, além de um relativo e limitado poder. Já os tão almejados títulos eram exclusividade dos portugueses.

Após Dom Pedro I elevar-se ao trono na Quinta da Boa Vista, o nascente Império do Brasil tratou de tecer sua própria tapeçaria aristocrática. A fundamental província da Bahia, claro, foi uma das mais generosamente agraciadas pelo imperador: 113 baianos galgaram degraus e passaram a ostentar brasões e distinções.

Duque, Marquês, Conde, Visconde e Barão, em decrescente hierarquia de importância, transformaram-se de palavras de um vocabulário distante em insígnias de prestígio, chaves de acesso de um novo mundo onde a aparência valia quase tanto quanto a fortuna.

Domingos Borges de Barros, o visconde de Pedra Branca, sua esposa Maria do Carmo Gouveia Portugal e a jovem Luísa Margarida Portugal de Barros, futura Condessa de Barral

Devidamente agraciados, restava aos fidalgos baianos pomposamente exibir, com calculada elegância, sua nova posição social — e os bailes realizados em seus palácios e casarões eram a oportunidade perfeita — afinal, as ruas da época exalavam chorume ao invés nobreza.

“Uma descrição básica da Salvador no século XIX ainda mostra as seguintes características: ruas estreitas, irregulares, sujas, com esgotos nos quais se lançavam todos os dejetos, de péssimo calçamento e mal iluminadas. Certamente não tinha como existir muito glamour nessa realidade. Por isso, a elite buscava conviver principalmente em suas casas”, explica o historiador e professor da UNEB Eduardo Borges.

E assim, dentro de portas, erguia-se um mundo à parte: soalhos cobertos, mesas ricamente adornadas, lustres cintilando como constelações domésticas, espelhos multiplicando a opulência, e porcelanas vindas de terras distantes davam o toque final ao cenário criado por patriarcas e matriarcas para provocar admiração — ou, no melhor dos cenários, inveja.

Não tão parisienses eram as vestimentas das damas e donzelas que desfilavam pela Rua Chile, a mais vistosa artéria da cidade. Vinda diretamente de Londres, onde observara a sociedade retratada em Bridgerton, a escritora e pintora britânica Maria Graham passou uma temporada em Salvador em 1822 e não ocultou seu espanto diante da liberdade vestimentar das baianas, onde peles eram exibidas despudoradamente.

“Como não usam nem coletes, nem espartilhos, o corpo torna-se quase indecentemente desalinhado. Não usam lenços ao pescoço e raramente os vestidos têm qualquer manga”, julgou a britânica com uma nada indiscreta dose de xenofobia.

A explicação para as escolhas de moda das baianas é, na verdade, simples: o sol e o calor que abençoam Salvador desde sempre são um privilégio que a fria, nublada e chuvosa Londres não compartilha. Durante o dia, reinava a leveza; à noite, contudo, a elegância assumia novas formas.

Retrato de uma dama da aristocracia baiana pintada por José Maria Cândido Ribeiro

Retrato de uma dama da aristocracia baiana pintada por José Maria Cândido Ribeiro

Bailes e Carnaval
Em certa ocasião, a escritora inglesa teve a oportunidade de participar de uma reunião social na residência do cônsul do Reino Unido em Salvador, chamado Mr. Pennell, localizada no Corredor da Vitória. E, sob a luz dos salões, as baianas revelaram-se dignas de elogios.

“Nas mulheres desmazeladas que vi pela manhã, tive grande dificuldade em reconhecê-las à noite. As senhoras estavam todas vestidas à moda francesa; corpete, fichu, enfeites, tudo estava bem, mesmo elegante, e havia uma grande exibição de joias”, elogiou.

Já os machos, pobres almas, não desfrutaram nem da generosidade de serem chamados de cavalheiros. “Os homens portugueses têm todos aparência desprezível. Nenhum parece ter qualquer educação acima da dos escritórios comerciais, e todo o tempo deles é gasto, creio eu, entre o negócio e o jogo. Do último as mulheres participam largamente depois de casadas”, pontuou.

Retrato do Coronel Domingos Pires de Carvalho, patriarca da poderosa família Pires de Carvalho e Albuquerque

“O depoimento de Maria Graham é interessante, mas deve ser visto com certo cuidado por tratar-se de uma europeia. Contudo, seu relato nos mostra uma Salvador com espaços de lazer que tentava reproduzir certa lógica europeia, porém, mediada pelas características da cultura dos trópicos. A Bahia nada produzia e, portanto, consumia tudo que vinha da Inglaterra, França e Alemanha”, explica o historiador Eduardo Borges.

Outra curiosa inclinação dos nobres baianos era o apreço pelo Carnaval. No século XIX, consolidaram-se bailes que, no caso dos cortejos da elite, seguiam o modelo que tinha em Nice, na França, como referência. Já os bailes de máscaras remontavam deliberadamente a tendência veneziana.

Mas esta aventura quem viveu foi outro britânico: Charles Darwin. Em 1831, o naturalista desembarcou no Porto de Salvador — o maior e mais importante do hemisfério Sul à época — justamente no período do Carnaval e não resistiu a cair na gandaia.

“Hoje é o primeiro dia de Carnaval, mas Wickham, Sullivan e eu não nos intimidamos e estávamos determinados a encarar seus perigos. Esses perigos consistem principalmente em sermos, impiedosamente, fuzilados com bolas de cera cheias de água e molhados com esguichos de lata”. Darwin encerrou o relato de forma cômica, porém verossímil: “Difícil foi manter nossa dignidade.”

Rumo à Vitória
A Salvador deste período expandia-se como um leque. Antes, ricos e pobres conviviam nos mesmos bairros, com mansões, por vezes, dividindo CEP com sobrados caindo aos pedaços. Agora, a elite buscava novos horizontes e elegeu o Corredor da Vitória como refúgio ideal, afastando-se da crescente mistura social.

Na primeira metade do século XIX, os primeiros casarões começaram a surgir na região, ostentando traços arquitetônicos mais alinhados à França do que à tradição lusitana. A menor densidade populacional permitia jardins mais amplos, onde a natureza era domada em formas elegantes.

O cônsul austríaco Maximiliano descreveu o cenário com notável lirismo: “A rua é excelente, larga e, como o caminho de um parque, orlada, na maioria das vezes, de touceiras de bambu pendentes, mangueiras ou por belos jardins, de cujo verde cintilam grandes palmeiras e araucárias, assim como algumas mansões. As casas multiplicam-se, enfileiram-se, e tem início a alegre e florida Vitória”.

Residência de Pedro Gomes Ferrão Castelo Branco, hoje conhecida como Solar Ferrão, no Pelourinho

Amor e hereditariedade
A nobreza brasileira guardava uma distinção crucial em relação à britânica: não se transmitia automaticamente de geração em geração. O filho de um duque, ainda que primogênito, poderia permanecer apenas com o nome — e as expectativas.

Inicialmente, os títulos recompensavam serviços prestados nas batalhas pela Independência; com o tempo, passaram também a ser adquiridos, mediante vultosas quantias. Prestígio, lealdade e ascendência compunham o delicado equilíbrio de cada escolha do Imperador.

Curiosamente, o primeiro nobre brasileiro era baiano: Antônio Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, agraciado por D. Pedro I em 1º de dezembro de 1822 como Barão da Torre de Garcia d’Ávila.

Tal peculiaridade moldava também os enlaces matrimoniais. Embora o ideal social favorecesse uniões entre iguais — ou ao menos entre fortunas compatíveis —, não era incomum que alianças atravessassem fronteiras de classe sem grandes escândalos.

“Os casamentos normalmente aconteciam entre membros da própria nobreza (resultado de acordos políticos familiares). Era muito comum sobrinhas casarem com tios, isso chama-se casamento endogâmico, mas era mais comum entre os membros da elite econômica. Porém, ocorria também o casamento exogâmico (fora da família); nesse caso, não havia tanta rigidez na escolha dos parceiros. Ocorria também o casamento entre comerciantes (que seriam os nossos burgueses) com filhas de senhores de engenho”, detalha o historiador.

A lei permitia uniões precoces — homens aos 14, mulheres aos 12 —, mas tais práticas eram mais frequentes entre as classes populares. Entre os nobres, o destino incluía estudos na Europa, especialmente em Coimbra, onde absorviam saberes, modas e maneiras.

Ao retornarem, por volta dos 30 anos, estavam prontos para o matrimônio — ainda que, muitas vezes, esse destino já houvesse sido traçado na infância por patriarcas ávidos em consolidar alianças e poder por meio de casamentos arranjados.

No entanto, uma história de enlace forçado teve um final que deixaria até Lady Violet Bridgerton emocionada. Luísa Margarida Portugal de Barros, a Condessa de Barral, herdeira do poderoso Domingos Borges de Barros, o Visconde de Pedra Branca, passou grande parte da infância e juventude na França.

No além-mar, teve educação progressista e incorporou ideias francesas sobre o papel da mulher na sociedade.

Prometida ainda criança a um nobre brasileiro, regressou decidida a casar-se por amor. O eleito era Jean Horace Joseph Eugene, que tornar-se-ia Conde de Barral. O pai da donzela foi convencido pelo tocante pedido da apaixonada — o detalhe do pretendente francês ostentar os títulos de marquês de Montferrat e marquês de La Bâtie d’Arvillars, e o parentesco com Josefina de Beauharnais, mais conhecida como esposa de Napoleão Bonaparte, claro, ajudaram na consolidação do argumento.

A Condessa de Barral

O especial Salvador 477 anos do Alô Alô Bahia é oferecido pela Moura Dubeux e Guanabara e conta com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador.

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