A cidade de Munique passou por uma mudança histórica em sua administração municipal ao eleger Dominik Krause como prefeito. Aos 35 anos, ele se tornou o primeiro integrante do Partido Verde a assumir o comando da capital da Baviera, encerrando um ciclo de 42 anos de governos do Partido Social Democrata.
Além da vitória política, Krause também é o primeiro prefeito assumidamente gay da cidade. Durante a campanha, no entanto, sua orientação sexual e vida pessoal não foram temas de debate público.
Nascido em 1990, o novo prefeito pertence a uma geração que cresceu em um contexto de maior abertura à diversidade na Alemanha. Formado em física pela Universidade Técnica de Munique, ele se assumiu gay ainda na infância. Krause é noivo do médico Sebastian Müller, com quem mantém relacionamento desde a adolescência. Após a confirmação da vitória, os dois se beijaram no palco da celebração, imagem que ganhou destaque na imprensa alemã.
A trajetória política de Krause começou em 2014, como vereador. Em 2023, ele assumiu o cargo de vice-prefeito e, agora, chega ao comando da cidade em um cenário de desgaste das gestões anteriores, especialmente da administração de Dieter Reiter, que esteve à frente da prefeitura por 12 anos.
Durante a campanha, o prefeito eleito priorizou propostas voltadas à ampliação de áreas verdes, incentivo ao uso de ciclovias e investimentos em moradia popular. Munique se diferencia do restante da Baviera por ter um perfil mais alinhado ao centro-esquerda.
A eleição ocorre em um contexto de aumento de casos de homofobia no país. Em 2025, foram registrados 2.048 crimes desse tipo, o maior número da série histórica, com crescimento contínuo desde 2017 e avanço mais acentuado nos últimos anos. Desde 2010, os registros aumentaram dez vezes.
O cenário acompanha a expansão de movimentos de extrema-direita, que têm intensificado discursos hostis à população LGBTQIA+. O secretário-geral do SPD, Kevin Kühnert, afirmou em entrevista que evita demonstrar afeto em público com o parceiro em Berlim por receio de violência. Em 2024, a chefe da polícia da capital chegou a recomendar cautela a casais gays em determinadas áreas.
No mesmo contexto, duas paradas do orgulho LGBTQIA+ foram canceladas em 2025, nas cidades de Regensburg e Gelsenkirchen, após ameaças. Já o governo do chanceler Friedrich Merz encerrou o plano nacional “Vida Queer”, voltado à promoção de direitos dessa população.
A eleição de Krause também foi comparada a marcos anteriores em outras grandes cidades alemãs. Em 2001, Klaus Wowereit revelou sua homossexualidade antes da eleição em Berlim, declarando: “Sou gay, e isso é uma coisa boa”. Já em 2003, em Hamburgo, Ole von Beust enfrentou uma tentativa de chantagem envolvendo sua orientação sexual, caso que acabou revertido em apoio popular.