Artista baiana Goya Lopes celebra 50 anos de trajetória com mostra no Museu de Arte do Rio

Artista baiana Goya Lopes celebra 50 anos de trajetória com mostra no Museu de Arte do Rio

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Cris Lucena

Publicado em 20/03/2026 às 14:24 / Leia em 4 minutos

A artista e designer baiana Goya Lopes chega aos 50 anos de carreira reafirmando sua trajetória com um novo capítulo, uma exposição individual no Museu de Arte do Rio (MAR), onde apresenta não apenas o vestuário que a consagrou, mas também pinturas, gravuras e experimentações que ampliam sua leitura como artista visual. A mostra “Okòtò: espiral da evolução” fica em cartaz até 7 de abril e marca um momento de virada na forma como a própria criadora deseja ser percebida.

Conhecida por desenvolver estampas que ajudaram a construir o imaginário da identidade baiana, Goya, hoje com 71 anos, decidiu aprofundar uma inquietação antiga: a necessidade de se afirmar também no circuito das artes plásticas. Após décadas de reconhecimento no design têxtil, ela buscou abrir espaço para uma produção mais autoral, atravessada por referências da afrobrasilidade e por um desejo de reposicionamento.

“Participei de coletivas, mas sempre com a ideia de design têxtil e arte. Nunca com telas. Então, essa exposição é mais do que celebração, é um novo caminho que se abre. Uma transformação aos 71 anos”, afirma rindo, em entrevista ao jornal O Globo. “Mostro um outro olhar sobre mim para as pessoas, porque a maioria me vê como designer. Busco que olhem para Goya Lopes não mais como produto, mas como arte. Sempre fui artista, mas o que as pessoas queriam ver era um vestido”.

A exposição reúne peças que percorrem diferentes momentos de sua trajetória, incluindo trabalhos produzidos ainda na década de 1970, quando estudava na Escola de Belas Artes da Bahia. O conteúdo, no entanto, permanece coerente: símbolos, grafismos e referências à cultura afro-brasileira aparecem tanto nas roupas quanto nas telas, criando uma continuidade entre moda e arte.

A história de Goya é marcada pelo pioneirismo. Após uma temporada na Itália, onde estudou estamparia, ela identificou a ausência de referências africanas na moda brasileira dos anos 1980 e decidiu criar seu próprio caminho. “Já existia referência afro nas artes visuais, com pessoas como Mestre Didi, mas na moda não existia. Retornei para Salvador com a ideia de construir um padrão identitário”, conta a designer.

Goya Lopes celebra 50 anos de carreira em nova fase | Foto: Cris Lucena

Foi desse movimento que nasceu a marca Didara, que significa “o que é bom”, em iorubá. Ao longo das décadas, Goya assinou figurinos para espetáculos e vestiu nomes como Jimmy Cliff, Gilberto Gil, Moraes Moreira e Sônia Braga, consolidando sua relevância no cenário cultural.

A nova fase, no entanto, evidencia uma mudança de percepção, inclusive interna. Durante anos, a própria artista acreditou não ter produção suficiente para ocupar uma exposição individual. Para o curador Daniel Rangel, essa dúvida estava mais ligada ao reconhecimento de sua identidade artística do que à quantidade de obras.

Nas peças exibidas, Goya constrói um vocabulário visual próprio, com símbolos recorrentes como rostos, mãos, pés, pássaros, folhas, máscaras e orixás, organizados em composições geométricas que funcionam como um sistema de signos. Segundo Rangel, trata-se de um “alfabeto visual” que vai além da estética e carrega múltiplas camadas de significado.

Ao decidir se dedicar mais intensamente às artes visuais, a artista afirma que não pretende abandonar a moda, mas reconhece a mudança como um gesto consciente de expansão criativa. “Estou muito contente com isso, não era um plano de agora. Quando fui chegando aos 70 anos, pensei que não dava mais para esperar. É importante não termos dúvida do que somos capazes de construir, e fazer arte, agora, é uma necessidade”, afirma ela. “Trabalhar com arte significa poder ousar mais. Sinto o compromisso de expressar… Os orixás não podem falar, ou seja, somos nós que expressamos essa ancestralidade”.

Representada atualmente pela galerista Thais Darzé, Goya vive um momento que vem sendo interpretado como um reposicionamento histórico de sua obra, inserindo sua produção no debate contemporâneo sobre a decolonização do olhar e o reconhecimento de trajetórias historicamente marginalizadas no sistema das artes.

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