Um estudo conduzido pela Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa em parceria com a Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo aponta que uma bactéria resistente a antibióticos, antes predominante em hospitais, tem ampliado sua circulação fora dessas unidades na região metropolitana de São Paulo. Os resultados foram publicados em 19 de fevereiro de 2026 na revista científica da Oxford University Press.
A pesquisa analisou 51.532 casos da bactéria Staphylococcus aureus registrados entre 2011 e 2021 e identificou uma mudança no padrão de transmissão. Ao longo do período, houve redução dos casos associados a hospitais e aumento das infecções ligadas à comunidade.
O estudo destaca o avanço do Staphylococcus aureus resistente à meticilina, uma das formas mais difíceis de tratamento. Tradicionalmente relacionado a infecções hospitalares, esse tipo de bactéria passou a atingir também pessoas sem histórico recente de internação.
Segundo os pesquisadores, os casos hospitalares de MRSA apresentaram queda média anual de 2,48%, enquanto os casos associados à comunidade cresceram, com aumento médio de 3,61% ao ano. A mudança indica uma transição no perfil de disseminação, que deixa de se concentrar em ambientes controlados e passa a ocorrer também no cotidiano da população.
Entre os registros analisados, a taxa de MRSA foi de 42,6% em pacientes com infecção ativa e de 37,4% em pessoas apenas colonizadas, quando a bactéria está presente sem causar sintomas. Crianças menores de três anos e idosos com 65 anos ou mais foram os grupos mais afetados.
Os pesquisadores também observaram crescimento mais acentuado de um tipo de MRSA associado à comunidade e sensível à clindamicina, com aumento médio anual de 8,77%.
Para chegar aos resultados, foram utilizados dados de uma rede com mais de 600 unidades de saúde. Os casos foram classificados por tipo e origem, e a resistência bacteriana foi identificada por testes laboratoriais, com análise da evolução ao longo do tempo por métodos estatísticos.
O estudo também mapeou a distribuição geográfica dos casos e identificou regiões com maior concentração da bactéria, incluindo áreas com taxas superiores a 20% de MRSA na comunidade.
O Staphylococcus aureus é um microrganismo comum, presente na pele e nas vias respiratórias, que pode não causar sintomas. No entanto, quando entra no organismo, pode provocar desde infecções leves até quadros graves, como pneumonia e infecção generalizada. A resistência a antibióticos, como no caso do MRSA, dificulta o tratamento e reduz as opções terapêuticas.
Com a ampliação da circulação fora dos hospitais, o risco deixa de se restringir a pacientes internados e passa a atingir também a população em geral. Os autores apontam que houve uma mudança significativa no perfil epidemiológico ao longo da última década e defendem a adoção de estratégias mais amplas de saúde pública, que considerem tanto o ambiente hospitalar quanto a comunidade.
A pesquisa é uma das maiores já realizadas em países de baixa e média renda com análise temporal e geográfica, e reforça a necessidade de medidas que incluam o uso adequado de antibióticos e atenção aos sinais de infecção no dia a dia.