O nascimento de um filhote de harpia, uma das maiores aves de rapina do mundo, foi registrado recentemente na área da Estação Veracel, no sul da Bahia. O caso chama atenção pelo ineditismo: trata-se do único ninho com filhote confirmado em 2026 entre os conhecidos no Corredor Central da Mata Atlântica.
Também conhecida como gavião-real, a harpia (Harpia harpyja) pode atingir até 1 metro de comprimento e envergadura superior a 2 metros, ocupando o topo da cadeia alimentar e exigindo grandes áreas de floresta preservada para sobreviver. A presença de um filhote ativo, portanto, é considerada um indicativo raro de equilíbrio ambiental.
O monitoramento da espécie na região ocorre desde 2005, quando foi identificado, na própria Estação Veracel, o primeiro ninho conhecido de harpia em toda a Mata Atlântica. Desde então, a área passou a ser acompanhada em parceria com o Projeto Harpia, com registros importantes ao longo dos anos, incluindo dois ninhos com filhotes em 2018. Nos períodos seguintes, porém, não houve sucesso reprodutivo, apesar da manutenção das estruturas pelos casais.
O cenário mudou em dezembro, quando uma fêmea colocou dois ovos em um dos ninhos monitorados. Após cerca de dois meses de incubação, um deles eclodiu. O nascimento é estimado em aproximadamente duas semanas. Para evitar interferências, o acompanhamento tem sido feito à distância, com uso de drones.
“A presença e a reprodução da harpia indicam que estamos conseguindo manter um ambiente equilibrado, com floresta preservada e recursos naturais suficientes para sustentar uma espécie que está no topo da cadeia alimentar”, destaca Marco Aurélio Santos, coordenador de Estratégia Ambiental e Gestão Integrada da Veracel.
Do ponto de vista científico, o registro também é considerado excepcional. “A harpia é extremamente exigente em relação à qualidade do habitat. Ter um filhote ativo no Corredor Central da Mata Atlântica é algo extraordinário, pois demonstra que ainda existem áreas de floresta com condições ecológicas capazes de sustentar uma espécie tão sensível e rara, o que nos enche de esperança de que possamos evitar sua extinção na região”, afirma Aureo Banhos, coordenador do Projeto Harpia Mata Atlântica.
O acompanhamento do filhote deve seguir de forma técnica nos próximos meses. A partir dos três meses de vida, a expectativa é instalar uma câmera no ninho. Já por volta dos seis meses, o animal poderá receber um dispositivo de rastreamento por GPS, permitindo ampliar os estudos sobre comportamento e deslocamento da espécie.
Em agosto do ano passado, outro jovem da região já havia sido equipado com transmissor solar, iniciativa que vem ajudando pesquisadores a entender padrões de voo, dispersão e os desafios enfrentados pela harpia em áreas fragmentadas da Mata Atlântica.
Com reprodução lenta e cada vez mais pressionada pela perda de habitat, a harpia depende diretamente da preservação de grandes extensões de floresta, o que torna registros como este raros e valiosos para a conservação da biodiversidade brasileira.