Cinema brasileiro vive auge, mas especialistas veem dificuldade em repetir feitos recentes no Oscar 2027

Cinema brasileiro vive auge, mas especialistas veem dificuldade em repetir feitos recentes no Oscar 2027

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Victor Jucá/Vitrine Filmes/Globoplay/Reprodução via Jovem Nerd

Publicado em 17/03/2026 às 11:34 / Leia em 5 minutos

Depois de dois anos históricos, com “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” entre os indicados ao Oscar, inclusive nas principais categorias, o cinema brasileiro vive um momento raro de prestígio internacional. A conquista inédita da estatueta em 2025 consolidou esse auge e ampliou a visibilidade das produções nacionais, que também vêm ganhando espaço em festivais e no circuito comercial.

O bom momento, no entanto, traz uma pergunta inevitável: é possível manter esse nível de presença global já mirando o Oscar 2027? A resposta, segundo profissionais do setor em entrevistas aos jornais O Estado de S.Paulo e O Globo, passa por cautela. Os dois filmes recentes já despontavam como fortes candidatos antes mesmo das estreias, impulsionados por trajetórias internacionais consolidadas de seus diretores e por passagens bem-sucedidas por festivais como Cannes e Veneza.

Para o produtor Rodrigo Teixeira, o cenário atual não deve se repetir com frequência. “Cinema hoje é o maior orgulho dessa nação. O futebol já não entrega o que o cinema está entregando”, afirmou. Apesar disso, ele pondera. “Eu não vejo o cinema brasileiro, nos próximos dois ou três anos, voltando para o Oscar ou ocupando uma posição de destaque como agora com esses dois filmes”. Segundo ele, trata-se de obras assinadas por cineastas com carreiras longas e reconhecimento global, algo ainda pouco comum no país.

A avaliação é compartilhada por outros especialistas, que apontam que chegar ao Oscar exige mais do que qualidade artística. Os produtores Caio e Fabiano Gullane destacam três pilares: “Uma história universal emocionante contada de forma muito singular, revelando a cultura e a identidade do país, uma execução técnica e artística impecável e uma estratégia de lançamento intensa, que consiga um festival grande como Cannes, Veneza, Berlim, Sundance”. Eles ainda ressaltam a importância de uma distribuidora forte nos Estados Unidos para sustentar a campanha internacional.

Além desses fatores, o crítico Waldemar Dalenogare acrescenta o peso das redes de contato e da capacidade de financiamento dos realizadores. “Não tem como não vincular a figura de Walter Salles à sua capacidade de mobilizar recursos, não apenas para fazer o filme que ele quer mas também para levar ao exterior. O mesmo dá para ser aplicado a Kleber Mendonça Filho”, afirma. Para ele, o desafio é ampliar esse alcance para além dos nomes já consolidados.

Outro gargalo está no mercado interno. Apesar do sucesso pontual de alguns títulos, a maioria dos filmes brasileiros ainda enfrenta dificuldades para atrair público local. Dados de 2026 indicam que mais da metade das produções lançadas no ano anterior não chegou a mil espectadores. Esse descompasso evidencia a necessidade de fortalecer a base local como condição para sustentar o crescimento internacional.

Para Ilda Santiago, diretora executiva do Festival do Rio, a equação passa por planejamento de longo prazo. “Continuidade e planejamento são palavras chaves nesse processo”, diz. “Distribuir o cinema brasileiro e internacional independente no Brasil é cada vez mais desafiador. Precisamos de uma campanha de longo prazo para trazer o público brasileiro de volta aos cinemas”, reforça.

O fortalecimento da indústria também depende de políticas públicas consistentes. Produtores defendem maior apoio do Ministério da Cultura, da Ancine e do Fundo Setorial do Audiovisual para garantir financiamento, coproduções e estratégias de distribuição internacional. “O cinema contemporâneo brasileiro reúne qualidade artística, talento, qualidade técnica e está muito maduro pra competir em pés de igualdade com todas as cinematografias mundiais”, afirma Fabiano Gullane.

Nesse contexto, outro ponto levantado é a necessidade de transparência e organização institucional, especialmente na escolha do filme que representará o Brasil no Oscar. Para Dalenogare, o processo precisa ser mais aberto e debatido com o setor, além de contar com uma rede de apoio que compartilhe aprendizados de campanhas anteriores. “Isso é muito novo para o Brasil. Então, é compartilhar esse conhecimento”, explica.

Mesmo com incertezas, há sinais positivos no horizonte. Novos projetos de cineastas como Cao Hamburger, Anna Muylaert, Gabriel Martins, Carlos Saldanha, Carolina Jabor e Fellipe Barbosa chegam às telas ao longo de 2026 e podem surgir como candidatos competitivos. Ao mesmo tempo, o interesse internacional cresce, com a presença de representantes da Academia e eventos globais realizados no país.

Após mais de duas décadas sem indicações entre “Central do Brasil” (1999) e “Ainda Estou Aqui” (2025), o Brasil volta a ser observado com atenção pelo mercado global. Para especialistas, o desafio agora é transformar casos de sucesso em política de continuidade, reduzindo a dependência de nomes consagrados e estruturando uma indústria capaz de competir de forma consistente.

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